A João Alexandre Barbosa
1
Conheci o texto crítico de João Alexandre Barbosa em estudos e pesquisas sobre a obra do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. Nem foi tanto a forma da linguagem circular na escrita crítica, determinada pela estruturada cultura que Alexandre Barbosa possuía como leitor de poesia, o que me atraiu sobremaneira. Mas o cuidado e a perspicácia do ensaísta em desdobrar o pensamento do poeta, nomeando-o poeta crítico, juntamente com a análise de sua escrita.
Sempre se pode encontrar o traço de um leitor de poesia em sua crítica. Mas Alexandre Barbosa conseguiu unir em seus estudos, pontos nevrálgicos sobre a obra de João Cabral que deram ao seu texto ensaístico uma singularidade.
2
Desejo fazer uma homenagem. Mas uma homenagem se faz com rosto vincado? Uma homenagem é escrita para ser lida em voz alta e não em voz baixa? E se faz inesperadamente ou poeticamente?
Uma homenagem que se mostra em uma página da internet pode ser uma escrita fora do tempo, na página nua, e buscando lembrar a voz do crítico como um estudioso dedicado ao ofício com a letra.
3
Relembro o dia em que o vi também fazendo uma homenagem ao amigo pernambucano, o poeta Sebastião Uchoa Leite, na Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro.
Registro que fiz algumas notas naquele momento que contou com a presença de vários poetas, amigos e familiares, além de alguns pesquisadores da Casa Rui.
Nessa tarde, o rosto sério (e quase tenso) de Alexandre Barbosa comovia.
4
O lugar de um crítico em nossos dias quase desapareceu. Na literatura, de uma maneira geral, costuma-se nomear o “último escritor”, o último ..., o último... E tudo em ritmo de despedida.
Sonhando ou mesmo de pé, sempre podemos pensar que vemos nosso leitor do futuro. E podemos também indagar: acaso no espaço Global haverá ainda lugar para as homenagens?
Vou buscar nos versos de João Cabral de Melo Neto, no poema escrito A Carlos Drummond de Andrade, o ritmo que quero dar a este texto-homenagem para um escritor crítico:
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio
das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
Muito obrigada João Alexandre Barbosa!
Rio de Janeiro, Primavera de 2008.