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“L’instant de ma mort” – Maurice Blanchot: uma homenagem

Solange Rebuzzi[]

No final de junho de 2002, chegando a Paris, qualquer leitor encontraria a vitrine da livraria PUF[] – no Boulevard Saint Michel – completamente ocupada com a obra de Maurice Blanchot. Eram fotos, cartas, alguns objetos pessoais e livros - muitos livros. Lá dentro, uma enorme mesa próxima à porta exibia em pilhas, os livros do nomeado “último escritor”.

Encantada e assustada eu mexi lentamente nos livros, e toquei-os com extremo cuidado, indagando-me: “por que os livros de Blanchot e a incrível vitrine estão assim expostos?”

Entre os livros que consegui escolher para adquirir – um pequenino e re-editado pela Gallimard recentemente – “L’instant de ma mort” – de apenas 9 páginas.   

O livro

Este pequeno livro conta, em narrativa de primeira pessoa, que um jovem – um homem ainda jovem – foi impedido de morrer pela morte mesma...
e o pequeno récit persegue detalhes do dia de um jovem francês, no final da Segunda Grande Guerra. Algumas reflexões fragmentadas traduzem os instantes, talvez vividos – quem sabe?!

O jovem francês é colocado diante do pelotão de fuzilamento de soldados alemães nazistas, que pretendiam executá-lo ali mesmo, em frente à sua família (às mulheres da família). Exposto e percebendo a morte tão próxima, o jovem relata que sentiu uma leveza extraordinária: –  “o encontro da morte e da morte ?” Para afirmar em seguida: “uma espécie de beatitude (nada feliz todavia).”

Ao terminar a narrativa do livro, ele declara:

- “Seria isto a guerra: a vida para alguns, para outros a crueldade do assassinato”.
(L.i. d. m. M, p.15)

No livro publicado pela primeira vez em 1994, pela pequena editora Fata Morgana, o leitor se depara com o compasso/descompasso da experiência com a violência e o trauma. Um relato que retorna na escrita, em sua possibilidade de se fazer inscrever. Mas Blanchot viveu, e viveu até os 95 anos de idade. E no percurso de sua escrita, encontramos um combate que faz trabalhar o que testemunha e o que se escreve em silêncio, no texto em fragmento. Falando do que não se diz linearmente, e não se diz todo, o escritor conclui:

“Que importa. Só permanece o sentimento de leveza que é a
morte mesma, ou para dizer mais precisamente, o instante
de minha morte que a partir deste momento sempre
persiste”.
(L.i.m.M, p. 18)

No que persiste e insiste – um impossível se apresenta. Blanchot percorre “o instante” em seu desdobrar obra – escreve e pensa sobre a morte e o morrer neste texto ficcional, poético e teórico – inclusive, sobre a própria morte.
Alguns personagens como “J” do livro L’arrête de mort,[] escrito em 1948,  também chegam a nos chocar pela intensa dor, enquanto o narrador se confessa inteiramente tomado pela experiência do morrer:

“Quem me desviou do caminho? Meu espírito justo. Quem faz
com que agora, cada vez que meu túmulo se abre, eu encontre
nele uma idéia bastante forte para reviver? O próprio riso
sarcástico de minha morte. Mas saibam que lá aonde vou, não
há obra, nem sabedoria, nem desejo, nem luta; lá onde entro,
ninguém entra. Este é o sentimento do último combate”.
(P.d.M, p.80)

A palavra de Maurice Blanchot permanecerá entre nós – com o assombro que não se apagará em nossa memória – e da morte do “último escritor” nada  sabemos. Um “nome familiar e estranho” como nos disse Derrida[], de alguém que deu um testemunho sempre nos fazendo pensar. Podemos, hoje, dizer que “ele morre sem desaparecer mais ainda que desapareceu sem morrer”.
Permanecemos com o seu vestígio...

A Maurice Blanchot em sua
invisibilidade,               
merci!

 

 

Texto lido em homenagem ao escritor Maurice Blanchot, na Escola Letra Freudiana, logo após sua morte.

O instante de minha morte

Maurice Blanchot

Fragmentos do texto traduzidos por
Solange Rebuzzi

Este livro foi anteriormente publicado nas edições Fata Morgana em 1994, e posteriormente nas edições Gallimard, 2002.

 

Eu me recordo de um jovem – um homem ainda jovem – impedido de morrer pela morte mesma – e talvez pelo erro da injustiça.

Os Aliados haviam se reunido para tomar posse do solo francês. Os Alemães, já vencidos, lutavam em vão com uma ferocidade inútil.

Em uma grande casa (o Castelo, diria-se) batiam na porta com freqüência timidamente. Eu sei que o jovem vinha abrir aos hóspedes que sem dúvida pediam abrigo.

Desta vez, urrando: “Todos fora”.

Um tenente nazista, em um francês degradante, fez sair primeiro as pessoas mais velhas, depois duas jovens.

“Fora, fora”. Desta vez, ele gritava. O jovem não procurava, no entanto fugir, mas avançava lentamente, de forma quase sacerdotal. O tenente o sacudia lhe mostrava os cartuchos, as balas, havia tido ali combate, o solo era um solo guerreiro.

O tenente se expressava em uma língua bizarra, e colocando no nariz do homem já menos jovem (se envelhece rápido) os cartuchos, as balas, uma granada, gritava com superioridade: “Eis aonde você vai chegar”.

O nazista colocou em fileira seus homens para aguardar, senão as regras, o alvo humano. O jovem disse: “Faça ao menos entrar minha família”. Seja: a tia (94 anos), sua mãe mais jovem, sua irmã e sua cunhada, um longo e lento cortejo, silencioso, como se tudo já estivesse executado.

Eu sei – eu o sei – que este que os Alemães tinham em mira não aguardando senão a ordem final experimentava então um sentimento de leveza extraordinário, uma espécie de beatitude (nada feliz, todavia) – soberana alegria esfuziante? O encontro da morte com a morte?

Por sua vez, eu não procurava mais analisar o sentimento de leveza. Ele estava talvez inteiramente invencível. Morto – imortal. Talvez o êxtase. Talvez o sentimento de compaixão pela humanidade sofredora, o prazer de não ser imortal nem eterno. Doravante, ele foi levado à morte, por uma amizade ilícita.

Neste instante, rápido retorno ao mundo, estoura um barulho considerável de uma batalha próxima. Os camaradas da Resistência desejavam colocar em segurança este que eles sabiam em perigo. O tenente se afasta para prestar contas. Os alemães permanecem em ordem, prontos a aguardar ainda em uma imobilidade que segurava o tempo.

Mas eis que um deles se aproxima e diz em voz firme: “Nós, não alemães, russos”, e, em uma espécie de sorriso: “exército Vlassov”, e fez sinal de desaparecer.

Eu acredito que ele se afastava sempre no sentimento de leveza, a ponto de só voltar a si na floresta longínqua chamada “Bois des bruyères”[], onde ele permanecia abrigado pelas árvores que ele conhecia bem. É dentro da floresta espessa que tudo acontece, e depois de bastante tempo, ele reencontrava o sentido do real.

 

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Até mesmo os cavalos inchados, sobre o caminho, no campo, testemunhavam uma guerra que havia durado. Na realidade, quanto tempo havia passado?

 

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Sobre a fachada estava inscrito, como um presente indestrutível, a data de 1807. Era ele tão culto a ponto de saber que este era o famoso ano de Iena, quando Napoleão, em cima de seu pequeno cavalo cinza, passava em frente às janelas de Hegel que reconheceu nele “a alma do mundo”, como ele escreveu a um amigo? Mentira e verdade, pois, como Hegel escreveu a um outro amigo, os Franceses pilharam e saquearam sua morada. Mas Hegel sabia distinguir o empírico e o essencial. Neste ano de 1944, o tenente nazista teve pelo Castelo o respeito ou a consideração que as fazendas não provocavam. No entanto revistaram em toda parte. Pegaram algum dinheiro; no quarto separado, “o quarto de cima”, o tenente encontrou papéis e uma espécie de manuscrito espesso – que continha talvez planos de guerra. Enfim ele partiu. Tudo queimava, exceto o Castelo. Os Senhores haviam sido poupados.

Então começava sem dúvida para o jovem o tormento da injustiça. Mais êxtase; o sentimento de que não estava vivo senão porque, mesmo aos olhos dos Russos, ele pertencia a uma classe nobre.

Era isto, a guerra: a vida para alguns, para outros a crueldade do assassinato.

Permanecia, no entanto, no momento no qual a fuzilaria não foi mais que uma espera, o sentimento de leveza que eu não saberia traduzir: libertado da vida? o infinito que se abre? Nem felicidade, nem infelicidade.

 

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Eu sei, eu imagino que este sentimento não analisável mudava o que lhe restava da existência.

 

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“Eu estou vivo. Não, você está morto”.    

 

Mais tarde, de volta a Paris, reencontra Malraux. Este lhe contou que havia sido feito prisioneiro (sem ser reconhecido), que havia conseguido escapar, perdendo um manuscrito inteiro. “Não eram senão reflexões sobre a arte, fáceis de reconstituir, enquanto que um manuscrito não era o ser”. Com Paulhan, foi fazer pesquisas que só podiam permanecer vãs.

Que importa. Só resta o sentimento de leveza que é a morte ou, para dizer mais precisamente, o instante de minha morte daqui por diante sempre em espera.

 

Notas:

[] Poeta e Psicanalista.

[] PressUniversitaire de France, livraria e editora, em Paris.

[] Traduzido no Brasil como Pena de morte  pela editora Imago, por Ana de Alencar.

[] Un témoin de toujours, título do texto pronunciado pelo filósofo Jacques Derrida, no momento da incineração do escritor Maurice Blanchot no dia 24 de fevereiro de 2003, na França.

[] Floresta de flores da região, de cor rosa violeta.

 

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