As falas proféticas dos homens que escutam a natureza

Agora este ano [2005] eu tenho observado principalmente as árvores, este cedro(...) quando é pra chover eles começam a despertar logo cedo, quando é tarde não dão nem notícia
- vem uma chuva aí; porque os insetos eles sai do mei
- a mãe natureza indica: tem a rolinha, quando põe no chão, o inverno se acaba mesmo; quando ela tá pondo no trepado, é inverno: ela não põe no chão porque se chover vai apodrecer os ovos
(Chico Leite, Município de Quixadá – Ceará)
Quem são os predestinados, os profetas, os que se lançam na “experiência” de profecia?
O que pensam os homens simples do nordeste que acendem os lampiões do futuro?
Ao leitor, adianto que a palavra profeta, no Dicionário do Aurélio, é originária do latin propheta, indivíduo que prediz o futuro; o advinho.
No chamado ou convocação onde alguns se lançam na experiência, que fará parte da vida inteira de um simples homem, encontramos aqueles que atentos à natureza e aos insetos, tanto quanto aos trovões e às chuvas, confirmam alguma magia de escuta no silêncio do sertão nordestino.
Colhendo os respingos das falas destes homens, assumidamente predestinados em suas sensibilidades, vamos entrando um pouco na linguagem falada, e no imaginário do nosso nordestino. Mais precisamente, do cearense, o que tem na língua um certo saber e um certo sabor. Talvez, na posição inversa: um certo sabor, um gosto mesmo com as sílabas pronunciadas e ditas em voz alta, ou baixinho, fazendo às vezes de um segredo no seu texto-testemunho. O saber parece mais ser da ordem do in-sabido, do não-sabido, para aquele que sabe escutar.
Buscando simplificar um pouco, podemos arriscar e afirmar, então: não seria mais próprio dizer que estes senhores têm “a experiência do inverno”?
Mas, a simplificação não atende ao que as imagens e as sinestesias das falas transcritas no trabalho realizado por Karla Patrícia Hollanda nos abrem, nas vozes destes profetas.
Na transparência de nossas retinas, tão fatigadas, podemos supor que encontramos nossas sombras – sem cor – e, que elas jamais nos deixarão.
O que as imagens nos falam? Pois, as imagens nos falam. E, o que elas confirmam é da ordem do desaparecimento.
Diante das coisas que surgem, de repente, sem querer nos deixar, podemos dizer que a estranheza confirma alguma verdade?
Deixo-os, leitores
diante de um livro que tem instantes deliciosos,
momentos únicos de aprendizado,
agora perdidos.
A aranha. Tá aqui o pezinho dela. Se ela puxar para fazer o tecido, se ela deixar espaço, com o fio alto, é sinal de bom inverno. Mas se ela deixar baixinho não tem inverno. Quando é ano [inaudível] ninguém sabe o que tá fazendo também. Ela ainda não teceu.
(Paroara, Município de Pacoti – Ceará)
Solange Rebuzzi
Rio de Janeiro, verão de 2006.