notas e resenhas

poemas

Seção com textos escritos sobre os livros de Régis Bonvicino, Lúcia Castello Branco, e outros.

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Diversidades amorosas

A editora Nova Alexandria aposta no amor neste momento de seu projeto de publicação das coletâneas temáticas. Dando continuidade à proposta iniciada com a publicação de O Decálogo, que reuniu 10 autores brasileiros contando histórias sobre os Dez Mandamentos, desta vez são 13 escritores. Na diversidade de suas trajetórias e estilos, a oportunidade de comprovar a excelência das contribuições. São 13 maneiras de amar, 13 histórias de amor e 13 diferentes formas de abordar um tema tão percorrido e sempre novo.

Os contos desta antologia desfilam desencontros. Desde Platão assistimos às inúmeras perguntas sobre o amor, tema fecundo e arriscado na dificuldade de se dizer algo que se sustente. São pequenas grandes histórias do cotidiano, nos anuncia a contracapa do livro, enviesando nosso olhar curioso de leitor para as páginas que nos surpreendem a cada conto. ''Amar dói'' nos diz ''o velho demais de velho'' no conto Iniciação do velho e do menino, de Silvério Trevisan. Pode parecer lugar comum, mas na literatura o amor não perde sua majestade. O texto buscado pelo leitor é desde sempre fantasioso e carregado de marcas. Ao leitor então, um lugar flutuante que busca certezas nas respostas nunca satisfeitas. É esse o jogo, pois amar é dar o que não se tem. Entre o objeto de nosso amor e nossas fantasias sobre ele, o amor circula em voltas e voltas que parecem perder-se.

Nos sonhos e devaneios, assim como na construção do texto literário, estamos diante do sonhador. No fictício, a construção da linguagem em um outro lugar. Um lugar onde a verdade não está em jogo. O amor sempre deslizante corre de um canto/conto ao outro nos revelando sua incompletude: ''Enquanto carregava ele pela vida, ela provava o quanto era imprescindível''. E logo adiante: ''Nunca havia reparado que cadeira vazia dói tanto dentro do peito (...)'', diz o conto UTI, de Adriana Falcão.

E a personagem de Domingos Pellegrini em No fundo parece firmar garantias quando diz para a filha: ''(...) desconfio que, no final das contas, o que vale mais é isso, uma lembrança ou outra, um dia ou outro que decide pelo resto da vida, quando a gente, mesmo na maior escuridão, obedece uma voz que fala lá no fundo.'' Uma lembrança ou outra, um dia ou outro, e assim vai se construindo na escrita a memória que beira o esquecimento.

O exercício da leitura como experiência de vida coloca ao leitor sua própria diferença. ''Para se chegar ao cristal é preciso acrescentar chumbo ao vidro'', afirma Carlos no conto Sem Mãos, de Heloisa Seixas. Mas ''onde se guarda o que é valioso?'' Há que ser bem longe de nós segundo Bonassi em Sobre a realidade virtual. Em tempos de globalização, como pensar a memória, se o que parece importar é salvar o arquivo? A tela é água e, não podemos esquecer, é cristal líquido. O conto de Heloisa Seixas trabalha no caminho das estrelas, no vazio. Na tela que é o papel em branco transformado, Carlos não consegue escrever, mãos vazias circulam no teclado, enquanto Sofia parece ser só um corpo que resiste e se rende. No computador nem sempre comportado, depositário de angústias e gozo, o conto de Bonassi radicaliza o amor.

Desmonta-se a mestria em Nos olhos dele, de Ajzenberg. O mestre ilustre do alto de seu amor mais puro traduz falcatruas e desencantos no mundo adulto de valores superfaturados. Na ''pausa agônica entre a criação e o gesto'', com Miguel Marinho bebemos do líquido precioso onde o amor se aproxima da criação. A mulher do genial pintor que pulsa passividade em Eu toda nua com Picasso é ponto alto que nos aflora e fere na ''ereção do olhar''. 13 Maneiras de Amar nos remete por seu tema a Amar, verbo intransitivo, e permanecemos ainda com a pergunta de Mário de Andrade: ''É coisa que se ensine o amor?''

Com toda a força da sonoridade, na alquimia de tons e cheiros, Bloch, em Lição de química, desconstrói uma vez mais o jogo do amor: ''Ludo melou tudo''. E no conto Correspondência completa, Paulo Roberto Pires fala de um lugar onde o sujeito só se salva na escrita. ''Te escrevo, reitero, para dizer que não conseguiremos nos livrar do amor que estrangula (...) te escrevo para lhe dizer onde estou, para me olhar não no espelho, que devolve reflexos invertidos, mas na carne ressequida das gramáticas''.

Enquanto Silviano Santiago em Uma casa no campo traz no detalhe o que tem história pra contar recuperando um tempo de delicadezas, falando do lugar do objeto na dissimetria do amor, os contos Polaris, de Márcia Denser, Amada amante, de Márcia Kupstas e Posto que é chama, de Mauro Pinheiro, trabalham na tensão do erótico que aflora na particularidade do ritmo de cada texto.

 

Caderno B do Jornal do Brasil publicado em 18/05/2001. p. 4

 

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