notas e resenhas

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Seção com textos escritos sobre os livros de Régis Bonvicino, Lúcia Castello Branco, e outros.

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A branca dor da escrita - um livro em três tempos

A poesia de Emily Dickinson atravessa tons improváveis do branco. Desde o título, o livro A branca dor da escrita, três tempos com Emily Dickinson desperta essadireção. A edição bela e cuidada da editora 7Letras, em parceria com a UFMG  (Universidade Federal de Minas Gerais), chega até nós como primeiro livro da coleção Sete Faces. A branca dor da escrita de Lúcia Castello Branco, com poemas e cartas traduzidas por Fernanda Mourão, nos contempla com três ensaios poéticos.

Na apresentação dos ensaios, a autora fala de um “desejo de estar perto de alguns estados de linguagem que a escrita de Emily Dickinson, como poucas outras, atravessou”. É sob a força da escrita desta poeta nascida no ano de 1830, em Armhest, Massachusetts, que o livro se desdobra cunhado em textos de leveza literária e rara sensibilidade.

Os 1700 poemas de Emily foram, segundo a leitura da autora, escritos e guardados de forma que hoje podem ser lidos a partir do significante “branco”, destacado e conceituado pela ensaísta na “branca dor da escrita”, com sua marca pulsional de letras que sublinha o que não pára de pulsar.

Não fosse  pelo cuidado de Dickinson de cortar e coser suas folhas-letters-poemas em livros escritos à mão no silêncio do quarto – de brancas paredes – e pela recolha de Lúcia Castello Branco, que escutou e ressignificou esse tempo de silêncio e obra, não receberíamos a “cena” de bordado-grafia, onde corpo e escrita estão imbricados de forma absolutamente desconcertante.

O livro de Lúcia Castello Branco carrega o branco com sua “branca dor” e  abisma. Nele encontramos os traços das leituras barthesianas, blanchotianas, freudianas e lacanianas da autora e a sombra da voz da escritora Maria Gabriela Llansol. Tanto na leitura dos poemas e das quatro cartas cuidadosamente selecionadas – entre as inúmeras escritas a Mr. Higginson – como dos ensaios, padecemos da mesma trama que levou a poeta a desdobrar sua dor: “desvendar o segredo do amor e da poesia”.

É com a afirmação de Blanchot “aprender a pensar com a dor” que Lúcia caminha. E se “A Dor –  tem um Elemento em Branco – ”, como quer o verso de Emily, na escrita de Lúcia respiramos a leitura que toca o impronunciável. O salto a que somos levados neste movimento se desprega das páginas “editadas” por Emily Dickinson, ressuscitadas no estudo de Lúcia Castello Branco, e habitam um sonho: o sonho da escrita que não teme abismos. Miremos, primeiro em Emily:

A dor – tem um Elemento em Branco
Já não pode se lembrar
Quando começou – ou se havia
Um tempo em que não havia –  

Não tem Futuro – além de si mesma –
Seu Infinito é maior
Que o passado – instruído a perceber
Novos períodos – de Dor.
(Poema 650) 

E, agora em Lúcia:

Esta mulher que, ao longo de sua obra – seus poemas e também suas cartas – lapidou, com todas as suas nuances, o significante “dor” – seja alinhando-o à idéia de morte, de angústia; seja à idéia de êxtase, de prazer – finalmente atingiu o ponto branco em que a dor é branca. “Pain has an Element of Blank –”, teria dito ela, em um de seus poemas. A dor tem um elemento de branco, de vazio. 

O que é o vazio da escrita podemos então perguntar. E, somos tragados no silêncio que não sibila. Antes percorrer o livro que afirma a letra da poesia de Emily – como letra aberta – (“com perfuração de laços, de nós, de costura”) e aguardar que o silêncio possa ainda habitar nosso quarto, em momentos de brancas leituras de poemas. Principalmente em instantes cada vez mais fugazes de escrita, onde escrever converte-se em experiência no seio do desamparo.

 

Publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais.

Solange Rebuzzi é poeta. Autora de livros de poemas e do ensaio: “Leminski, guerreio da linguagem” (7Letras).

 

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