A mulher e o chapéu

(São nove horas da manhã de um domingo imóvel).
Ao sair para caminhar, procuro no armário o chapéu de palha. Desconfio que os chapéus portam algum mistério.
- Quero levar no chapéu os pensamentos sérios! (Avisei a ele, que indagou sobre a necessidade de levá-lo já que o tempo estava nublado).
Caminhando em terra batida, ela olha e sente as rugas das flores murchas. Também percebe as dobras das rosas ruivas e as amarelas que brilham sobre talos ainda retos.
As folhas das palmeiras se agitam em troncos ordenados.
- Mas ao ver um bicho pequeno que corre, de repente, em que você pensa?
- De repente, nem sei o que dizer, mas posso buscar um pensamento em baixo do meu chapéu!
- Um colibri pode me trazer o ligeiro. Aquilo que, em geral, esquecemos no lado de fora da vida.
Hum... perfume louco! as flores são a intimidade que se derrama.
A brisa alísia perpassa narinas abertas.
O chapéu se transforma em bolsa sem alça. Conhecendo a mulher de outros passeios, algumas flores até suspeitam que por ali exista algum espaço inusitado.
O gafanhoto derrapa ao tentar cair no chapéu buquê, mas passa perto e erra o salto.
- Veja esse gafanhoto em seu verdebrilho! E lá de onde ele vem tem uma flor lilás. Mas do galho não retiro nada, deixa ela para lá.
Começa um chuvisco fino.
- Preciso me abrigar (o chapéu cumpre outra finalidade).
A mulher se arrisca e continua o caminho. Nem sempre em baixo dos galhos grandes e peludos.
O cheiro da chuva invade. Pinta de embaçado o olhar longe.
De perto, quando o olho é tacto, ainda é possível perceber nuances. Folhinhas mudas e sementes.
A mulher suspira a névoa que desce. Ele observa pela lente da máquina a natureza dessas manhãs de abril.
A mulher e ele seguem. Uma e outra pedra pontiaguda nos pés.
Na saída do Jardim, o carro aspira o ar da cidade. A mulher contém o fôlego. Ele reclama.
Um sinal de trânsito embaralha o excesso.