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Vitela assada e batatas ao murro

- Mas nem por um decreto eu deixaria de ir, exclamei. Foi assim que reagi ao telefonema de um amigo, que me convidou para um almoço de domingo. Almoço que ele mesmo ia produzir. Vale dizer que, o cozinheiro não tinha o hábito de lidar com panelas e coisa e tal. No entanto, o convite era irrecusável. A família acabava de voltar de uma viagem de férias ao nordeste, e trouxera na bagagem artesanatos especiais, o que de imediato me deixou em alvoroço.

Há muito deixei o consumo de lado, e faço parte daqueles que gostam de comprar livros e artesanatos - de diferentes lugares e países. Livros escolhidos no detalhe, um a um, e artesanatos poucos. Em geral, permaneço atenta às expressões raras, como a de uma boneca do Vale do Jequitinhonha que amamenta um bebê (com cara de homem). Ou, ao colar de semente pau-brasil vendido pelo índio-descendente-de-índio, que me intrigou pela ruga na testa, possivelmente, no cansaço e mal estar por estar vendendo colares no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Em tempos bizarros como os nossos, observe que a ruga na cara de um índio me levou a comprar o colar que, hoje, carrega essa prega cada vez que é usado!

Já faz tempo que eu li que o horror não faz parte das catástrofes. Na ocasião, só consegui me desvencilhar da questão, ao ouvir Jacques Derrida, alguns dias depois falando sobre o perdão (quando o filósofo esteve na Maison de France do Rio de Janeiro). Foi uma bela fala de onde recolhi, principalmente, que a questão de perdoar não é simples e nem carrega em si o tom religioso mais conhecido entre nós.

Continuando: o cozinheiro mostrava, entre fotos e “causos”, os artesanatos adquiridos nos passeios pelas praias e lugarejos do nordeste; pequenos livrinhos de poesia de cordel, algumas rendas feitas com bilros, toalha de mesa branca bordada com pontos de cruz, etc. Tudo tão delicado, que me devolvia tempos outros de nossa vida e nosso cotidiano! O prato principal, como vocês já podem ter percebido, era uma corada vitela assada, que estava acompanhada por batatas ao murro (isso mesmo, batatas que prescindiam de um bom murro, logo ao sair do forno, para deste jeito tomar forma!).

“O horror não faz parte das catástrofes”... eu li no jornal francês nesta época, e remoí o assunto por dias e dias. Faço questão de marcar o território onde vivo: o Rio de Janeiro – tão perto do horror. Continuo matutando ainda hoje, muitas vezes zangada, e outras tantas melancólica. Acredito que nos tornamos criaturas de consumo, tão desinteressantes e desinteressadas, que, nem mesmo as catástrofes vividas com horror conseguem nos acordar! Chernobyl... está logo ali. Aqui bem perto, temos Angra dos Reis!

De um assunto a outro, sinto-me um pouco estranha de apresentar aos leitores tudo isso de uma só vez. Vocês podem até discordar, porém se hoje as batatas podem ser servidas aos murros... o que dizer dos noticiários de TV que nos açoitam com naturalidade, e as vezes até com as expressões dissociadas de alguns tele jornalistas, que não param de sorrir diante de manchetes dilacerantes.

Vejam que caminhamos, a cada instante, assistindo na mídia cenas de violência – de acordo com o nosso silêncio pois com ele autorizamos às barbáries que acontecem ao lado – assim como assistimos a nova maneira de destruir e degradar vidas humanas desmontando a história dos povos que pensam e rezam diferente de alguns de nós. Mas, há como barrar um desmonte construído por cabeças doentes e autoritárias que, em nome do poder, buscam vestir verdades e explicar mentiras impossíveis.

Autorizo-me a escrever misturando pratos exóticos e temas densos para não deixar pesar o texto. Quem sabe, talvez, consiga sensibilizar algum leitor...e, fazê-lo pensar por alguns minutos. Precisamos pensar, e levar adiante a crença de que não necessitamos do horror, embora a catástrofe possa, em alguns momentos, fazer parte do viver.

Nada é mais perigoso que o silêncio (esse silêncio que autoriza as barbáries)! E não podemos seguir supondo que depois seremos perdoados!

 

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