Onde moram os pensamentos
Desde que cheguei em Paris, diante de um inverno “tardif et glacial” como diziam os franceses na época, venho colhendo expressões as mais diversas – quer sejam exclamações nos museus ou, simplesmente nas calçadas das ruas da cidade – que traduzam a estranheza com a diferença, na sutileza dos povos
Depois de alguns meses circulando, principalmente no vai-e-vem do metrô, atentei para o mal estar de muitos (nas mais diferentes línguas), especialmente nos espaços fechados. Walter Benjamin, comentando sobre a Paris de Baudelaire, alertou para o desconforto que foi o início dos tempos modernos, quando as pessoas começaram a se olhar de frente e de perto, nos bondes e nas calçadas. Sujeitos e objetos estavam misturados no mundo capitalista, que ali se iniciava, e todos eram mercadorias ao olhar “profético” de Baudelaire. No texto benjaminiano, o flâneur é também uma resistência à ordem de consumo. E, exemplarmente representava sua geração, que permanecia “muda de espanto”.
Baudelaire passeava pela cidade procurando anotar o que via, buscando armazenar uma série de impressões que, mais tarde, seriam transformadas em imagem, imagem poética. Dentro desta perspectiva, ele passa a ser o primeiro poeta moderno porque, sua obra inteira remete à questão da possibilidade ou da impossibilidade da lírica em nossa época. É precisamente essa experiência que determina que sua poesia urbana seja de transitoriedade e fragilidade. Seus poemas escrevem a cidade no sentimento de isolamento e das transformações incessantes.
Percebo que quando estamos nesta situação de “passagem”, quando estamos indo ou voltando com nossas estranhezas, experimentamos e traduzimos o estranhamento com o outro; o outro da diferença.
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O teatro/vídeo-performance Looking at Ta’ziyè de Abbas Kiarostami, cineasta, poeta, pintor e fotógrafo iraniano (Palma de ouro no Festival de Cannes 1996 com Le goût de la cérise/O gosto da cereja), que assisti no Théâtre de la Bastille, na noite de 24 de maio, é inominável. O incômodo de alguns espectadores, que partiram após menos de meia hora de espetáculo, serve para nos ajudar a pensar.
Este trabalho de Kiarostami coloca em relação três elementos, estranhos uns aos outros, e aborda a cena teatral na única forma de representação tolerada no Islam: o épico Ta’ziyè, um rito tradicional e popular do luto xiita. A obra desloca nosso olhar de uma cena para outra, de forma complexa em três telas diferentes, e a liberdade de construção na narrativa de Kiarostami trabalha elementos da mitologia xiita (na pequena tela do centro), e atravessa abismos de dor em séries e planos, compondo com as duas enormes telas laterais o que foi chamado de uma verdadeira instalação. Trata-se do trabalho feito pelo cineasta, percorrendo seu país durante alguns meses, filmando uma multidão de espectadores do Ta’ziyè. (Conta-se que o épico reúne a população, em uma mistura de luto-e-catarse, onde a fala dos atores já quase sabida de cor, não é mais o ponto de referência para o choro da platéia).
Pois bem, nesta noite de maio, a grande tela da direita, reservada à tribuna dos homens, mostrava imagens em p/b de homens de todas as idades, xiitas iranianos. A tela da esquerda atestava a emoção das mulheres, velhas ou jovens com seus véus – insondáveis, cobrindo quase completamente o rosto. Os olhos, de vazia amêndoa (à la Paul Celan: amande vide), ficavam descobertos.
Diante do foco nessas inúmeras molduras, a obra de Kiarostami se desdobrava. Não havia som, exceto na pequena tela colocada “entre” as outras duas grandes, o que em si já surpreendia o espectador -aturdido, pois as palavras eram incompreensíveis para qualquer ocidental, e as imagens, em cores, transmitiam o teatro e seu texto permanecendo sensíveis ao olhar.
O texto-filme do poeta das imagens, nesta noite disposto diante de tapetes vermelhos e pufes ao chão, no pequeno Théâtre de la Bastille, oferecia um espaço oriental destacado do dia a dia francês. O mal estar que provocou, com a sutileza das imagens, com o choro dos xiitas, no silêncio e em p/b, foi surpreendente e próximo do oco das palavras que nada dizem, senão pelo abismo do incompreensível. O terceiro elemento, portanto, o público ocidental, se via confrontado a esta situação, múltipla, de força extrema.
Giorgio Agamben, um pensador filólogo italiano, que vive em Veneza, disse recentemente em Paris, que precisamos ouvir o silêncio. Sua fala me retorna agora, pois “a cada instante, a medida do esquecimento e da ruína, a dissipação ontológica que carregamos em nós, excede muito a piedade de nossas lembranças e de nossa consciência” (tradução livre: Profanations. Giorgio Agamben, p.37).
Longe da globalização e de toda religiosidade, este trabalho de Kiarostami traz uma interrogação de “abismos insondáveis”.
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Sou levada naturalmente aos ventos da sonoridade do nome próprio do poeta Wally Salomão (uali salomão), este que se nomeava assim: com a sonoridade de um UA! (sonoridade de um ditongo aberto). Aí encontro também o espaço para o espanto: o espanto do pensamento. Uali Salomão sabia no seu não saber, que as letras, as consoantes e as vogais unidas sustentam além do ritmo, o inesperado.
(Saúdo Wally Salomão, poeta inventivo, catador de palavras, que a maneira de Baudelaire, em caminhadas no Jardim Botânico e pelo bairro do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro, encontrava o ritmo dos versos feitos na ponta, ou na dobra da língua, e vivia a experiência com a linguagem no experimento e na singularidade dos significantes, silêncios e/ou abismos!).
Paris, 5 de junho de 2005.