Marché de la poésie

1
Relato que muitos poetas levaram suas vozes aos cantos e ventos da praça Saint-Sulpice. Foram duas noites de leituras ao ar livre. Todas as espécies de criações verbais estavam ali colocadas, em textos, dos tantos poetas que leram em muitas línguas. Consegui perceber versos em francês, inglês, italiano, russo, espanhol, português, além de ruídos doídos, vozes de repetição e gestual de quase murmúrio.
Foi muito estranho ouvir a dedicatória feita aos condenados à morte, aos torturados, às mulheres que foram estupradas, na voz de um poeta que não saberei dizer o nome, e que afirmava o que traduzi: “nós plantamos o vôo do vazio no fuzil”. E, a seguir, a explicação ainda em verso: “vou dizer o texto como Artaud me disse no meu sonho”.
Os poetas falaram aos que em silêncio escutaram no Marché de la poésie. Um poeta de Madagascar, outro da Córsega e outro da Sardenha. Muitos italianos trouxeram seus versos, e mulheres cantaram homenagens a Pier Paolo Pasolini, várias vezes.
Dizem que o poeta francês Bernard Noël ama o pronome tu, porque diz o outro e sua falta. Os que o conhecem sabem que ele procura a experiência com a palavra e os silêncios súbitos, constantemente escutando o outro e a si mesmo. Eu li no Le sillon des sens: “tout ce qu’on voit sans le voir/ quand le corps s’émeut d’une présence/ l’oeil rencontre alors sa chair dans le papier”. Serena presença de uma voz, cujo texto passa a ranhura da língua e das pedras: “tudo o que se vê sem vê-lo/ quando o corpo se comove com uma presença/ o olho encontra então sua carne no papel”.
Boris Gamaleya, em seu último livro Russie noire, deixa ver a sua ilha natal de cultura eslava. Ele coloca entrelaçadas as regiões distantes do mundo, do espírito e do coração, como um pássaro que recolhe todas as origens: “Oiseau! tu n’auras aujourd’hui que l’espace d’un / poème”. E foi assim, que “senão no espaço de um/ poema”, a voz grave de Gamaleya se abriu na praça Saint-Sulpice.
No dia 24, sexta-feira, alguns dos homenageados foram Christophe Tarkos, Primo Levi, um poeta do Marrocos e outro de Quebéc.
Eram 105 editoras que abriram seus estandes à visitação pública (algumas possuíam pequenas luvas de algodão, visando proteger seus livros do calor e do suor de nossas mãos). Entre as editoras destaco: Le temps qu’il fait que publica o poeta Jude Stéfan, Cadex que publica Christian Prigent, Al Dante que publica Christophe Tarkos, Fata Morgana que publica Bernard Noel.
Ainda:
Babel éditeur, Bleecker Street, (La) Délirante,
le farfadet bleu, l’Inventaire, Lèvres Urbaines,
Mix, Moebius,
Musica falsa,
Nous,
Nu(e), Nunc,
Phébus, Poèmes en gros & demi-gros,
Transignum, Typo, Verdier, Verlaine,
Voix d’encre, Voix du regard,
Zédélé,
etc.
Na semana seguinte foram 109 bouquinistes, na mesma praça.
*
Acordo os sentidos da mão, apenas acrescentando que o sino da igreja de Saint-Sulpice tocou seu bumbo aos ouvidos esquecidos. Ofereço um instante de sensação fora dos céus dos fuzis. Um Vôo de letras na esperança de uma simples vogal no céu.
2
J’aime
Tu aimes
Il aime
O poeta contemporâneo Christophe Tarkos morreu dormindo. Eu fiquei sabendo no dia 20 de abril de 2005. Mas ele morreu em 30 de novembro de 2004. Ou, terá sido na noite de 29 de novembro?
Seu amigo, o poeta Julien Blaine escreveu:
“un jeune homme dormant
et tu es passé insensiblement du sommeil
à la mort.”
“um jovem homem dormindo
e você passou insensivelmente do sono
à morte.”
Morreu dormiu?
de uma palavra à outra
como bem gostava de fazer
T A R K O S
A T R A V E S S O U
*
“J’AMAiS!”
E foi o que escreveu, outra vez, Julien Blaine
O corvo de Edgar Allan Poe reaparece: “nunca mais, nunca mais!”
É bem verdade que, antes quando morria um poeta alguns se indagavam o que acontecia nos céus (Ahha Axmatoba/ Anna Akhmatova se transformou em estrela, nos céus da Rússia, ficamos sabendo!). Nos dias de hoje a pergunta é descabida. Ao poeta, a responsabilidade de buscar abrir o espaço do espanto e da dúvida? O mundo anda surdo de reflexão, e pálido, embriagado no real. Sacudir as letras e insistir: j’aimais. Talvez a simples afirmação na sonoridade do amor.
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Queremos poemas! E, marche de la poésie!
Vale a diferença, as muitas diferenças nas línguas - as tantas línguas - e suas nuances de ritmos.
Vale o hálito, a tosse, os engasgos, os tropeços e a gagueira. Valem os poemas bilíngües, multilingües.
Valem os sonetos, os esquecidos poemas, os tantos quantos escritos poéticos que se iniciam, assim como aqueles que estão nas páginas amarelas de livros antigos.