Sempre aos domingos
Na noite de 14 de maio, os museus de Paris abriram suas portas, a partir de 19.30 horas, para as visitas livres. Faz tempo que pagamos aos museus de Paris, e agora em euros, para entrar e admirar as obras que ali se dão ao olhar. Pois bem, ontem foi uma noite especial. Não havia estrelas no céu que até estava embaçado, mas a noite convidava passeios pelos museus, que permaneciam, vários deles, abertos de 19.30 às 3.00 horas da manhã. Era “La Nuit des Musées” (“A Noite dos Museus”).
Fui ao museu Bourdelle, e para quem desconhece o escultor, é interessante contar que Antoine Bourdelle viveu e trabalhou no quartier de Montparnasse, foi aluno de Auguste Rodin e mestre de Alberto Giacometti. O museu é um testemunho de seu tempo, e abriga inúmeras esculturas; umas 800 peças, além de desenhos e manuscritos doados pela filha Rhodia, mais recentemente. Nos jardins internos, que acolhe esculturas em bronze, tais como Sapho e La France, encontram-se acácias plantadas pelas mãos do escultor.
Claude Rutault, um artista contemporâneo, envelopou com tecido de algodão natural cinco obras de Bourdelle: alguns dos bustos de Beethoven esculpidos repetidamente. Dando ao olhar uma “atualização”, a sua intervenção nessas obras, surpreende e esvazia. Esta exposição temporária Les toiles et l’archer, no museu Bourdelle, nos leva a pensar a respeito das coisas.
Na linha da poética de Francis Ponge, o objeto é pensado como objeu, o que carrega o sentido do objeto e do jogo com a linguagem, não apenas na mudança de uma letra na palavra objeto (objet/objeu), mas no que vai sinalizar uma outra coisa, inserida no jogo das palavras, e apontando alguma falta. Assim, a exposição de Rutaut me levou a pensar na presença da coisa ausente e jogada no vazio.
As linguagens dos dois artistas de tempos diversos: Bourdelle que se consagrou com seu trabalho em outro século (XX), e Rutault neste nosso século (XXI), com suas próprias travessias, nos dão a ver a matéria em texturas distintas. No entanto, as esculturas de Bourdelle, após terem sido “cobertas” por Rutault, mostram-se evacuadas, provisoriamente, enquanto objeto-escultura, e tomam a forma de um outro objeto, bem próximo do objeu pongiano.
O museu que se localiza em volta dos ateliês de Bourdelle, onde ele viveu e trabalhou de 1884 a 1929, permanece sendo um lugar singular e poético.
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Li outro dia em Francis Ponge, no texto sobre o escultor Alberto Giacometti, (L’Atelier Contemporain) que é preciso escrever a arte. O poeta precisa escrever o que vê na obra de um artista. É preciso pensar o exercício da potência, vivendo-o.
Diante de um mundo que afirma o fim da literatura, entre outros términos, o que é escrever? E o que é ser poeta? Também podemos indagar por que escrever, ou o que escrever? E, buscar passar da criação à obra. Se escrevermos em função da doença, da morte, do tempo, escreveremos para buscar construir o tempo? Um caminho aberto e chão? Para fincar raízes no escuro da página em branco?
Ponge ao falar a arte escrevendo-a, se refere às condições materiais que regem a produção destes trabalhos. O “ato” desta escrita singular abre a porta de uma ética, no gesto mesmo de uma nova dimensão, onde não há festa nem consumo.
Nas dobras da língua podemos passear sempre. Também podemos encontrar o osso, o caroço das palavras, o que nos obriga uma outra cena, uma outra prática: uma materialidade semântica. Lembramos João Cabral de Melo Neto que afirmou: “Para mim, arte é construção. Eu não sei latim nem grego, não sei de onde vem a palavra arte, mas você veja que a palavra arte está muito ligada à palavra artesão. E a palavra artesão está ligada à palavra trabalho.(...) Para mim, um poeta, um escritor, um romancista é um artista como um sujeito que faz sapatos” (Entrevista a Mário César Carvalho, Folha de São Paulo, folha Ilustrada, São Paulo, 24 maio 1988).
Alguns poetas contemporâneos franceses trabalham com a falha, a desarticulação, em uma espécie de hesitação na escrita, que encontra quelque chose ausente. Eu não saberia, por enquanto, nomear essa marcha que se impõe na poesia de nosso tempo. A partir de Antonin Artaud, por exemplo, conseguimos ver que as glossolalias (o ritmo, as aliterações, etc), e as implicações do corpo e da voz deixaram um rastro que é seguido por alguns poetas.
O ensaísta e também poeta Chistian Prigent, sinaliza a questão da contemporaneidade com a definição de que escrever (em tradução livre): “... é tentar abrir uma passagem nesta muralha que sutura o caos das coisas” (Ceux qui merdRrent, p.123).
O que a poesia apreende do real é um não saber, em ritmos improváveis e dobras dispostas no vazio. Artaud, e mesmo Christophe Tarkos (poeta francês recentemente morto), encontraram alguma brecha – um sopro – para encarnar a língua na intranqüilidade do corpo.
São reflexões que no a posteriori da visita ao museu, eu li nas dobras do tecido que encobriam as esculturas de Bourdelle na “Noite dos Museus”. Dito de outra forma: a poesia que se diz “dentro de um sopro”, naquilo que sopra diante de nós, coloca em jogo um certo movimento de desaparição. C’est ça! Vou ficando por aqui, porque ...
o vento/ assovia/...