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Seção com textos da coluna da autora no Portal Cronópios, e outros escritos.

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Cidade gris

Caminhar pelos bairros de uma cidade pode ser uma atividade estranha. Não só recolhemos no olhar a curiosidade, como observamos os sapatos que cortam as linhas das calçadas. Vestidos de forma austera ou prepotente, os pés flutuam em meio a poças d’água na sujeira de detritos e precariedades. Cansadas sandálias de dedos naufragam.
É segunda-feira depois de meio dia. A chuva fininha deixa o bairro encoberto de gris.
Ela sente nos braços ainda a umidade de um verão com algum mistério. 

Um   dois   três ...

 

1. Um homem costuma olhar sua fêmea em ângulos de sobriedade. Registra os instantes na memória que descansa aos domingos na mímica que repete dentro de casa: lavar as mãos, tomar café recém passado, ler sentado no canto da sala sob a sombra da janela.  

Coisas (em silêncio) se debruçam no poético do texto.
Entre a palavra em balbucio e a palavra escrita é a voz que localiza o que vem à tona:

Decididamente, o movimento do mundo se impõe.
Se o homem respira o ar – quase irrespirável – e ainda agradece, nas dobras agitadas pelo vento o frescor constitui os gestos.  
Respire o ar pelas narinas e pela boca e exale os sentimentos na coreografia do espaço.

As cidades mudam muito rapidamente. Neste outono que começa, quase não reconheço os pedaços. O Jardim Botânico lotado. Em que momento do ano transformou-se? As folhas douradas no chão não conseguem me contar dos pés que agora trafegam por ali. A aventura das trilhas é a altura dos sonhos.

Viaja-se nos segredos e resistências dos pedestres e, dentro de alguns ônibus sente-se o movimento das ruas do Centro.

2. Johann Sebastian Bach compôs no outono de 1729, com uma harmonia que se desprega em ondas, o sopro de uma melodia em luto. As passagens desprendem consoantes que saltam.
Imagem auditiva?
Agitada pelo vento das intensidades a cidade do Rio de Janeiro exala, neste julho de 2007, uma espécie de sonho-Pan despregado da memória recente dos fatos que a atingem. Esquecer não é possível! 

Na visibilidade do sonho encontramos e tocamos a morte. Não a nossa, mas a de todos nós.
Não há possibilidade para a palavra sem sopro. Sentimo-la em exercício,  e tornando-se um gesto de ar, de suspense, de acontecimento.

3. Ao vivo a competição de nossas meninas-em-dança-e-equilíbrio. Vê-las no espaço sem o susto da queda R – e – s p – i- R – a – n – do ou “brincando” o SaLTo,  é vê-las também nos efeitos da forma nascida do ar.

 

Texto publicado no Portal Cronópios, na coluna da autora; Nas dobras da língua.

 

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