poemas

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Seção com poemas dos livros: Contornos (1991), Canto de sombras (1997), Pó de borboleta (2002), Leblon, voz e chão (2004), além de alguns inéditos em livro.

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Exercício

1.

É com angústia que o poeta espera a escrita se inscrever, mas não somente. Diante da folha em branco ou da tela clara de um computador habilita-se o jogo das palavras no vazio que brilha. Um jogo onde as palavras inserem-se – em sua materialidade – como se cada uma delas fosse mesmo um objeto, uma espécie de pião (conforme comentou Picasso sobre os poemas de Francis Ponge), que se movimenta e gira entre os dedos da mão, sem cessar.

Experimentamos

construir na escrita alguns tantos objetos, com palavras

pensamos pelas esquinas dos versos

buscando o tempo que arrisca no chão (d e s t e r r i t o r i a l i z a d o)

ou no céu - folha - de - papel

visualizar o dia, a loucura, a morte?

Assim na folha nua ou na tela-água,

palavras fluem e resistem

e se autorizam...

Algumas bóiam, saboreiam certas sobras, afundam.

Algumas outras encontram a rota e carregam muchas voces.

Há ainda as que sacodem a saia das beiradas das páginas deixando ver  (an)águas antigas que resistem ao calor de tempos novos.

 

As letras – algumas letras: d, b, p, g, j ,q – parecem insetos pousados nas janelas. Essas letras – de braços ou pernas alongadas – podem ao se juntar com qualquer das cinco vogais levar muitos fios e formar palavras de paladar inusitado.

Ou, qual bombas!!! explodir matérias (sem poesia).

Lembro que vi, em flash de TV, as bombas --- minas --- sendo retiradas do chão, em locais onde foram plantadas, como se fossem sementes secas:

(horror
e
silêncio)

2.

Em dias de tempestade gosto de olhar o céu, e, procuro no clarão dos raios recolher nas mãos os sonidos caídos do alto ou do baixo do escuro escorrendo.

É de lá que me ocorrem as letras altas, as que cortadas em cima levam  junto as formas decididas: f, t, l, h. São letras que supõem crescimento no traço riscado à mão de cima pra baixo ou vice versa.

As dentais T T T (tês) envolvem um trabalho de elegante exigência ao leitor, compondo um ateliê atulhado dentro da boca. “Na visualidade da escrita, a fieira de dentes: T T T T T T” (Décio Pignatari, em um dos prefácios de Marina Tsvietáieva, p.18).           

As palavras estrangeiras também ensinam. Transpõem novos cenários. A palavra inglesa thirteen, por exemplo, traz na língua um especial sonido de vento-em-frestas no alvorecer das frases prestes a sair... e correr. 

Nas línguas estrangeiras encontro a estranheza com as diferenças, inclusive, a da presença da falta como é o caso da letra E (no francês), que, às vezes, está lá como a traduzir a própria falta. Cito: chèvr(e)/ (cabra), onde a sonoridade, segundo o dicionário da língua francesa, é de três consoantes c,h,v. A letra E é muda. Valère Novarina fala que “O E mudo é a mola invisível do francês: um ponto de energia que se comprime ou se estende – dependendo da emoção – e dá à nossa língua sua força propulsiva” (Diante da palavra, p.41).   

Há poetas que gostam de trabalhar esta materialidade que os convoca sem perdão. Eles passeiam a mão firme que corta e fura o poema ao escrevê-lo, listando coisas, palavras-coisas, pensamentos, agonias. As palavras fazem trabalhar o músculo!

Mas importa – singularmente – a travessia de cada poeta, “travessia respiratória do espaço” – matéria invisível (Novarina, Idem, p. 47).

É de lá que acodem os ritmos, os movimentos da língua, do escuro recanto que cada poeta busca ouvir e trazer à tona em seu texto.

3.

Hoje, os poemas são muitos, insistem e escrevem-se na página guardando a falta que compõe o olhar de cada poeta. A paisagem está destituída, enquanto paisagem de mundo. Paisagem de deserto ou linha de horizonte de onde o ponto perdido deixa ver apenas a poeira, em terreno impossível sequer de se respirar...

4.

As perguntas sobre o tempo de um escrito podem circular e abismar. De um lado o poeta escreve a um leitor que é percebido como leitor ninguém-absolutamente-ninguém (em um mais além de João Cabral), e por outro lado escrevem, escrevem, escrevem. Os poetas contemporâneos sussurram sem cessar a este leitor ausente, endereçam-se a um ponto de interrogação.

O que pode a poesia, então?

 

 

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