poemas

poemas

Seção com poemas dos livros: Contornos (1991), Canto de sombras (1997), Pó de borboleta (2002), Leblon, voz e chão (2004), além de alguns inéditos em livro.

Início » poemas » Vestes e Vestígios

 

Vestes e Vestígios

 

 

Para Maria Gabriela Llansol

I

                               (acordei)


... e da janela da frase,
——————— uma impulsão suave as leva
em caminho onde o corpo da escrita
desdobra-se
mesclado ao corpo-personagem-mulher;
a outra que escreve

– Sim, somente a escrita me leva e
o vento
assovia
frases-asas
Descobrem-se folhas secas de árvores nuas:
                                                 passeio solitário
Preciso ir diz o sino distante badalando distante
Mulher de negro e olhar de monge
aberta ao seio da terra fresca e úmida
segue no deserto branco
no arrepio rubro
do sexo de cabeça voada

Eis aqui a rua e a voz estranha que me escreve
diz a mulher
bordando
cantigas
nas areias de um dia-verão
Uma voz pede qualquer passagem
poeiras do chão

Mulher de negro e olhar de monge
qual gavião sem paragem
perambula sob as margens
recolhe no bico
os grãos de ruídos do mundo

Qualquer lugar destino
é festa de rio
depois da colheita
algodão e trigo
– sempre pelas margens –
ao sol seco de muitas paragens

II

                               (anoiteci)


a mulher geme sua ternura
ao pé da página
bifurca descalça
uma linha qualquer
Quando menos espera
só espera
espera espera
No rosto a sombra marca os vincos do já desaparecido
e parece cantar um lamento
........... devagar a noite perambula
e as mãos procuram o lápis

Ela escreve:
que queres de mim?
em um diálogo com a outra que escreve

Há que aguardar o dia
onde a brecha mostre
uma indulgência clara
pensare numeri damnum
pensamentos-asas

A mulher fecha a janela da frase
quando o dia
se faz ruído
vaga-
lume

Nas ruas crianças gesticulam
os homens de terno
caminham a lugares do sempre o mesmo

Fecha com o cobertor um último vestígio:
adormece

III

                               (amanheci)


Vestes? Que queres vestir
em dia de luto
ainda que nada tenha morrido

– Meus vestidos estão
puídos
ou estarei enlouquecendo
como nos dias jovens de cólicas quentes
e cama dolorida?

O batom de hoje foi sangue ontem
correu entre minhas coxas
com gosto grave

eu me olhava em outras
nada reconhecia
não pensava nada

                      (nem tanto, afinal a velha recolhe nas gavetas
                      as folhas das cartas encardidas)

IV

                               (sonhou)


Saborear nas margens
encontrar letras dobradas

Na cadeira de balanço
uma mulher adormecida
com o lápis na mão:

a teia aranha
rouca louca
explode voa
penetra fundo
planta folha
santa puta
lenço lençol
nas cordas do varal

– Ah! ...
sonhou


Rio, 28 de agosto de 2002.

 

^ topo

 

Manutenção e desenvolvimento: Rafael Caterina
© 2008 Solange Rebuzzi. Todos os direitos reservados.