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Seção com poemas dos livros: Contornos (1991), Canto de sombras (1997), Pó de borboleta (2002), Leblon, voz e chão (2004), além de alguns inéditos em livro.

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Nos jardins de Nîmes (ou nas pregas da minha saia)

 

 

uma árvore tem quatro chãos
o vazio do poeta
o vento dos sinos
os s(s) e n(s) dobrados
correntes e asas
de palavras a serem ditas;
uma pétala nos céus esquecidos das vogais?

Dominique Fourcade leu versos
no Centro George Pompidou
- poemas escritos a partir de uma foto:
um americano e um iraquiano

(eu soube que Juan Miró pintou
quadros a partir de poemas)

alguns versos são escritos
para serem lidos sem paginação sem tempo
são escritos enquanto as areias e os ventos se movem
barulhos da rua invadem as passagens

vozes (fora do poema?)

a tela do computador é água,
disse-nos o poeta Armando Freitas Filho


respiro

o que sabemos nós dos barulhos do mundo
e do silêncio?
qual o tempo do poema
da onda
da glote?

os músculos da face
na movimentação das pálpebras
soçobram na noite
(longa noite de verão)

procuro o poema
procuro ruídos
s(s) de vibrações
depois de muitos cafés

os olhos cercam tons vermelhos de Cícero Dias
na Maison da América Latina
passos
observam o mundo
o deserto de solidão se instala

a palavra recolhe texturas
o vazio sossega por instantes:

Maurice me escreveu
Daisy aussi
(os s(s) das sílabas
que penduram a letra
i)

Dominique Fourcade sublinhou:
- “se eu escuto o silêncio eu devo escrever este barulho”

nas pregas da minha saia
os bordados se pronunciam
negros
as pernas suplicam o poema
o corpo todo pede

rosas    rosas
e, magnólias
depois eu ainda prefiro
o corpo da palavra
(esqueço os pés inchados
nas sandálias de dedo)

flash: entre as urinas
nas pedras quentes
sombras
nomes nas escadas
coloco os pés dentro do espaço
dos cheiros
sobre os Jardins de la Fontaine

o azul se instala na mesa
onde escrevo
antes foi o marrom
a madeira viva
sob o sol

l’abricot: une saveur sucrée
– árvore robusta –
ele encontra seu lugar
em solos calcários
chega ao dourado ou ao vermelho rubi
sem pudor:
sais minerais, ferro,
calcium magnesium

resta insistir
na pele da palavra
na polpa da palavra
(vogais e consoantes)

uma onda quase imóvel
faz espuma
um incompreensível
inscreve-se nos lábios
na tensão da pressa

 

 

Paris, 30 de junho de 2005

 

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