Orelha do livro Leminski, Guerreiro da Linguagem
“O modo como leio uma carta é...assim.../ Primeiro...fecho a porta.../ E, a seguir... afasto-a com os dedos .../ Para assegurar o seu transporte...”
Os versos de Emily Dickinson podem servir de pórtico para este livro de Solange Rebuzzi. E aqui refiro-me não só ao objeto que esse livro focaliza – as cartas-poemas de Paulo Leminski --, mas sobretudo à maneira como o próprio texto da autora se apresenta, também ele uma carta-poema.
Não é tão incomum, na atualidade, que os trabalhos acadêmicos se escrevam em dicção escritural. O que talvez não seja tão freqüente assim é que a escrita do pensamento e o pensamento da teoria – como se propõem a ser as análises literárias – se escreva como carta. E, menos ainda, como carta-poema.
Esta é, no entanto, a leitura a que nos convida este texto de Solange Rebuzzi. Escrito no rigor da letra de Leminski, Blanchot, Barthes e outros teóricos da contemporaneidade, este texto nos convoca, sim, ao pensamento, mas ao pensamento que, poderíamos dizer, tem a densidade do fragmento: mínimo, pontual, mas aberto ao infinito literário. Tal infinito não se deve abri-lo de forma precipitada, nos mostra a autora. Pois se a solidão abre o verbo, o verbo pode se abrir, infinitamente, a outra língua, estranha-estrangeira, aquela em que “quando o sentido caminha/a palavra permanece”.
Escrito, portanto, no rigor da letra/carta, este texto nos convida a também lê-lo em ponto de letra: primeiro fechar a porta, depois abri-lo devagar ... para assegurar o seu transporte. Assim, se uma carta/letra é uma brasa, como observam Leminski e Solange, ela é também uma asa, capaz de nos transportar a outras margens: ao “aberto rolar do pensamento”...
Foi ainda Emily Dickinson quem disse, certa vez, em uma de suas cartas a Susan Gilbert: “open me carefully”. Este é também o convite que nos faz este livro de Solange Rebuzzi. Tenhamos a delicadeza de abri-lo cuidadosamente, pois no aberto do pensamento não se entra rápido demais.
Lucia Castello Branco