Carta do leitor Daniel Welbert
Minha cara escritora,
Li teu “Exercício” no Jornal do Senhor Soares. A leitura deste teu texto ou comprova-me as instigantes veias invisíveis que ligam o poético ou demonstra-me que a angústia é uma inelutável questão do poeta com a experiência íntima da estese: ou Graves e Rilke ou Blanchot e Kafka, este dos diários.
Talvez debato-me inútil na inclinação que possuo à dicotomia, sendo a solução um aceitar como duas facetas de uma única experiência o invisível e a angústia.
Após uma crise criativa que quase me custou a sanidade (pois o convívio sincero, a comunicabilidade real com os outros já se foram há muito...) uma grande aporia surgiu sem as verdades “transfiguradoras do deserto”. Já não escrevo mais e sei que não se trata desta vez daquele tão conhecido descanso que a Musa nos permite, com sua “saudável” ausência, após sua aproximação numinosa que quase nos aniquila. Hoje, vejo que é outra coisa. Não necessariamente um silêncio, muito menos uma falta de predisposição para os ensaios do belo, da escrita. Não. Aqui ou é a abulia por inteira, ou umas especulações sem ecos. Há sim uma necessidade de imagem que só poderia ser realizada com a vivência deste ato que não existe mais, o da escrita, a única via possível, agora eu vejo, para a saída da Aporia, da angústia. A vida possível para mim.
Gastei esta necessidade na leitura dos “Salões” de Baudelaire e na decifração, auxiliada por Eugène Conselliet e P. Dujos, de alguns tratados de alquimia. Ou seja, uma interpretação apaixonada da “escola do pedantesco”, e de quadros que trazem por um idioma hermético de representações confabulares, fórmulas de transmutações et cetera.
Não houve, é claro, por estas tentativas excêntricas e com um gosto gótico, a satisfação desta necessidade. E, para ser sincero, perdi nesta época, até mesmo o eixo que me angustiava.
Não o disse ainda, mas escrevo desde os 17 anos. Comecei tarde, eu sei. Reuni minha produção poética em quatro volumes não publicados: As súplicas do sono, A cartografia de Pavese, Os aposentos do declínio e Os exercícios de Agathos. Hoje, com 27 anos, sinto ter realizado com meus livros apenas a primeira parte do meu ofício, minha “ouvres noir”. E, a questão é que não tenho sequer a vitalidade para um próximo passo. Nada em mim o indica. E isso para mim seria o mesmo que viver incompleto, entendes? E ter lido teu texto, numa publicação virtual que não costumo ler, colocara-me novamente alguma coisa das questões que tinha perdido.
Deve ser no mínimo curioso para um ensaísta saber que por estes jogos adoráveis do “acaso” alguém ache no seu texto o palco de sua vivência, não pretérita, mas presente. Isso se dá normalmente com o póstumo. E devo considerar um luxo do acaso tal encontro do teu texto. Essa foi a única motivação para escrever esta pequena carta. Que minha experiência lhe motive novos textos.
Daniel Welbert