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Uma Poesia de Sombras

Solange Rebuzzi, poeta carioca, lança, pela editora Sette Letras seu segundo livro de poemas, "Canto de Sombras". São 33 poemas que encantam pela beleza sensível dos versos

Manoel Ricardo de Lima
Articulista do Vida & Arte

Existe um princípio que norteia a poesia contemporânea: ela tem infindável possibilidades, como nunca. A editora Sette Letras comprou a briga: é a que mais tem publicado novos poetas, novas possibilidades. Obviamente, nem todos são bons, nem todos fazem funcionar uma poesia com sabor de alma e formação de estética. Mas às vezes, mesmo, poesia precisa apenas de cor para estremecer uma sombra que anuvia o mundo real. Caso deste livrinho de Solange Rebuzzi, Canto de Sombras, que entra para o time da Sette Letras e, principalmente, para um time de mulheres que são verdadeiras poetas.

Solange, carioca nascida em 1951, não é uma poeta estreante, lançou seu primeiro livro em 1991, Contornos (ed. Massao Ohno) e foi uma das fundadoras do jornal Poesia Viva, da editora Uapê, onde era membro da comissão editorial até 1997. Este seu Canto de Sombras é um pequeno amálgama entre a essencialidade do verso e uma espécie de derramamento lírico.

Há sempre uma busca do poeta, quando verdadeira antena da raça, para encontrar um caminho possível entre o que pode ser lido hoje, como poesia, e o que ainda funciona como tal dentro de velhos padrões demarcados por uma inquieta infinidade de referências. Esta é a dança do intelecto procurando a absoluta compreensão para a poesia: o lado sensível. A sensibilidade é a demarcadora, é o cerne. A poesia de Solange Rebuzzi é uma prática de equilíbrio: sensações, ausência, intelecto, referências.

Pequenos 33 poemas, básicos, imperativos. Projeto gráfico comumente bonito, seguindo a linha que a editora trabalha, e uma postura de quem anda passeando muito seriamente por toda uma produção literária que tem o mesmo ritmo de rigor. O fato é a permanência, já está na epígrafe de Holderlin: "Pois é o que permanece, o que traz o rastro dos deuses." Esta preocupação aparece em cada poema, mesmo os mais fracos.

O que mais impressiona na poesia de Solange é mesmo a beleza do verso. E se alguém disse, um dia, que a existência da arte justifica-se apenas na busca do belo, Solange já entra re-justificando o passo em Germinação, poema que abre o livro, sua poética: "No começo, o traço. / Jorra força a água / no verde / que brota. / /Qual a duração da permanência?". Trazendo em algumas páginas o poema manuscrito ao lado da forma impressa, demons­tra o sentido de permanecer no que é efêmero ou em uma procura do que está ausente.

Versos como: "Retorno e vejo a cadeira, / vazia, ao meu lado." e "Por entre claros e escuros/ um silêncio um quase nada." são a mais pura evidência desta plenitude humana causada pela falta, pela lembrança. A categoria da memória é a não-imagem mais forte da poesia de Canto de Sombras. Se há alguma filosofia em poesia, essa é a de Solange: repensar cada pedaço que se aglutina enquanto se folheia um velho álbum de fotografias. Como em Cotidiano: "A cada manhã / o mesmo rosto. / No escuro da cama / a verdade das mãos. / / Lamber os lábios / após o gole de café / como quem degusta chocolate. // Ele não tinha mais / os beijos sonoros / da infância."

Os últimos poemas do livro são dedicatórias para cada referência direta: Manoel de Barros (o princípio de lagartear o poema), Camille Claudel (a construção, uma poesia da pedra), Mário Quintana (aqui, certamente, o trabalho incessante apenas com o ritmo e a beleza do verso), Octavio Paz (o branco, a ausência) e Vladimir Maiakóvski (revolução também se faz com a prática do verso).

O lirismo, que é aparentemente tardio ao mundo contemporâneo, encontra em Solange uma reviravolta de metáforas que desenganam o leitor. O sujeito é subvertido em objeto, constantemente. O tempo é revirado, às avessas, não há presente, o agora é antes. Da preocupação de permanência ao esgotamento de uma poe­sia possível com qualidade de bele­za, a afirmativa de Solange no dístico final de Em-cobrimento, último poe­ma do livro: "Inevitável tocar / a sombra do dia."

 

Publicado no Jornal O Povo - Fortaleza/CE, em 06/03/1998.

 

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