A escrita das margens
Prefácio para o livro Leminski, guerreiro da linguagem, de Solange Rebuzzi
Maria Esther Maciel
Um inventário de vinte e duas definições de poesia extraídas de textos poéticos ou teóricos de vários autores de diferentes tempos e linhagens compõe o famoso poema “Limites ao léu”, de Paulo Leminski. Ao colocar em um mesmo topos dizeres diversos e, muitas vezes, contraditórios sobre o que se entende por poesia, o poeta curitibano nos diz, por vias transversas, da impossibilidade de se fixar para esta um conceito que não seja insuficiente e provisório. Isso porque, dependendo dos contextos, pretextos, linhagens, perplexidades ou demandas de cada poeta, a poesia pode ser todas as coisas arroladas no poema e, paradoxalmente, não ser nenhuma delas. Daí que ele lance, ao final, uma definição que funciona como uma leitura em contraponto de todas as definições apresentadas: “a poesia é a liberdade de minha linguagem”. Ou seja, ela se indefine ou se infinitiza na potencialidade que o poeta tem de ser livre, de levar às últimas conseqüências ou colocar a descoberto os próprios limites da linguagem.
Essa aposta na liberdade foi um ato que Leminski exerceu intensamente em sua curta vida dedicada às palavras. Embora tenha transitado por várias tendências poéticas em evidência no seu tempo e dialogado com distintas tradições, ele nunca se deixou confinar em gerações ou grupos específicos. Para ele, a relação com seus pares e precursores passava também pela “desleitura”. Incorporou o legado oswaldiano e a tradição japonesa dos haikais e dos samurais, formou-se na poesia marginal dos anos 70, manteve um contato criativo com a poesia concreta e com o tropicalismo, mas ousou afirmar sua própria dicção, inventar um caminho só seu, feito sobretudo de desvios em relação às vias já fixadas.
Além desses trânsitos, Leminski experimentou e mesclou todos os gêneros, num movimento de abertura ao híbrido, ao mutante. Experimentações e mesclagens que não se efetuaram apenas nos campos da poesia, da narrativa, da letra de música e do ensaio, mas também em outras formas textuais consideradas menores, como os escritos ocasionais, as notas, os fragmentos, as cartas. Estas, por exemplo, Leminski transformou em verdadeiros poemas híbridos, ao dispô-las ora em versos (rimados ou não), ora em uma prosa descontínua e ritmada, enlaçando-as a notas prosaicas, retalhos de conversas, apontamentos críticos, rabiscos e sinais gráficos.
É exatamente sobre essas cartas-poemas de Leminski – mais precisamente aquelas endereçadas ao poeta Régis Bonvicino e reunidas no livro Envie meu dicionário. Cartas e alguma crítica (1999) – que Solange Rebuzzi constrói sua leitura do poeta curitibano, flagrando-o em seu hibridismo e em sua inquieta imprevisibilidade.
Através de um discurso fluido e liberto das amarras acadêmicas, Solange – que também é poeta – nos oferece um ensaio ao mesmo tempo leve em sua construção e consistente em suas proposições e argumentos. Privilegiando as cartas escritas por Leminski na década de 70 e conjugando-as com a produção poética do autor, a estudiosa abre sua leitura também a vários outros aspectos da vida e obra leminskianas. Além de traçar uma espécie de biografia oblíqua do poeta – uma biografia que se furta à linearidade da cronologia e se constitui de “flashes”, de cápsulas ao mesmo tempo referenciais e poéticas, de sucessões descontínuas – , ela dialoga com textos críticos sobre ele, enfoca sua transculturalidade enquanto polonês-caboclo-samurai-latino, seus trânsitos em diversos campos do conhecimento, seus vôos inventivos como romancista de feição joyciana, suas desovas espontâneas e sua opção por um rigor flexível no trato com a palavra poética.
No que se refere propriamente às cartas-poemas ou poemas-cartas, Solange as analisa com uma preocupação de também evidenciar seus entornos, suas margens, suas rasuras e seus anexos, explorando o que Júlio Castañon chamou de “enlaces dos diferentes tipos de textos em suas distintas faces de configuração”. Como bem observa, as cartas de Leminski se expandem para além de seu desfecho marcado pela assinatura: elas se desdobram em “verdadeiros mapas com traços e letras sinalizando o projeto de um novo livro”. Daí que a escrita das margens, os adendos a lápis, as setas, as rasuras, os pós-escritos mereçam da autora uma atenção especial. Ela sabe que, tanto quanto o corpo principal das epístolas, os restos e anexos também fazem parte do anti-sistema poético leminskiano e atestam – através de sua relação com os poemas, ensaios, traduções e narrativas do autor – o caráter fragmentário e aberto de uma obra aparentemente desorganizada, mas que instaura uma ordem outra, porque avessa aos critérios previsíveis dos modelos legitimados de organização.
O grande traço de originalidade do livro de Solange Rebuzzi se faz ver exatamente nessa ênfase conferida à questão do fragmento. À luz dos apontamentos poético-filosóficos dos primeiros românticos alemães sobre o tema, bem como das teorias de Maurice Blanchot e de Roland Barthes, a autora busca nas noções de “inacabamento”, de “semente literária” e de “désoeuvrement” as diretivas para sua leitura do espaço poético-epistolar criado pelo poeta curitibano. Ela nos mostra como cada pedaço de texto, cada verso e cada anotação feita nas margens do papel se configuram como peças avulsas que, por sua vez, se constituem sempre com um começo de um novo texto. E que não deixam de ser também, como diria Barthes em seu elogio do fragmento, o interstício de suas vizinhas.
Tais fragmentos são feitos ainda, como nos mostra Solange, de textos alheios, recortados, citados e traduzidos, compondo uma espécie de constelação em que se fazem ver as afinidades literárias do poeta, seus registros de leitura, seus exercícios de admiração e de recusa. Além disso, trazem explícita ou implicitamente os sinais de uma vida real, presentes nas muitas referências prosaicas ao aqui/agora do próprio autor. Para não mencionar as notas de cunho político-cultural. De fato, como nos mostra a pesquisadora, há nas cartas-poemas-fragmentos de Leminski “um certo testemunho de seu tempo, para além do factual”. Não são escassas as alusões do poeta à ditadura militar dos anos 70, ao movimento da contracultura, às inquietações político-estéticas de sua geração. Nesse sentido, as cartas funcionam também como crônicas oblíquas de um momento histórico preciso, como relatos transversos de uma biografia sempre transitória. Nelas, a escrita se alinha ou se desalinha segundo as intensidades do imediato e do contingente, ao mesmo tempo em que se cristaliza em poesia.
Assim, conjugando seu olhar reflexivo de pesquisadora com os insights criativos de poeta – vale dizer que a conclusão do ensaio se dá à maneira de um poema-carta – Solange Rebuzzi constrói um belo e instigante texto sobre a correspondência entre Leminski e Bonvicino. Um texto que, além de fazer jus ao rigor flexível do poeta curitibano, também ousa exercitar – fora das formas e fôrmas acadêmicas – a liberdade de sua própria linguagem.
Belo Horizonte, 22 de fevereiro de 2003