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A construção de uma poética pétrea e “a condição severina”

João Cabral de Melo Neto persegue em sua obra, inclusive com o trabalho de Morte e vida severina, a noção da construção de um idioma pétreo, colocando-se em um lugar mais próximo ao de poetas que afirmam escrever uma poesia após a poesia. Ou seja, escrever poesia diante de um impossível.

Uma poesia após Auschwitz? A questão foi reformulada por Primo Levi da seguinte maneira: a partir de agora, só se pode escrever sobre Auschwitz, saindo da posição de indiferença e alienação.

Sim, também nos interessa uma poesia que possa se mostrar e se escrever, sem estar envolvida com os critérios da forma apenas. Deve-se escrever com a verve, voltando-se às questões relevantes de nosso tempo, por exemplo, no caso de João Cabral, com as questões do nordeste e da morte do povo do nordeste. Então, uma poesia após Auschwitz é possível, quando se escreve questões pertinentes ao nosso tempo, firmando uma memória e construindo poesia com “(...) palavras/ impossíveis de poemas”.[1]

Vejamos: o nome é Severino, e, como qualquer nome próprio, é escrito com maiúscula. É nome masculino dado em pia batismal. Mas, no nordeste há muito Severino, então o nome próprio ganha o plural e se torna nome comum (de muitos): Severinos. Insistindo em se  afirmar, o Severino cabralino passa a carregar, ao longo do poema, os nomes da mãe e do (finado) pai. Assim, se escreve: “Severino da Maria do Zacarias”, para em seguida ganhar um endereço: Severino, “lá da serra da Costela, limites da Paraíba”.

O Severino, imigrante do poema de João Cabral, percorre sua caminhada nordestina, pisando a sina dos que habitam aquela região, onde se morre de fome, “de fraqueza e de doença”, pois que a morte severina, essa que é transmutada a partir de um nome próprio, “ataca em qualquer idade, e até gente não nascida”.[2]

Uma estrofe de quatro versos esclarece a questão da fome e da morte prematura do nordestino, mas dá também ao leitor a “condição severina”, fundamental no poema, pois articula-a no percurso do retirante:

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesmo a morte severina:
(Morte e vida severina, p. 146).

A palavra associada tanto à morte como à vida balança nesse intervalo de um viver difícil e de um nascer buscando sobreviver. Nas tantas cenas descritas no poema, reconhecemos uma “colagem ao modelo litúrgico: a anunciação do nascimento; o canto de louvor (loa) ao recém-nascido que deu ‘seu primeiro grito’”.[3] É uma forma de trazer ao texto, com o recurso da liturgia, o anúncio do nascimento, um ritual em uma louvação a um começo de vida.

Retomando a leitura, desde o seu início, temos a presença da morte anunciada com a entrada no texto de um defunto – Severino Lavrador – que é carregado em uma rede, e é o invólucro da temática a que o rio Capibaribe assiste, diariamente, inclusive, com a canção da morte cantada ao finado Severino:

–  quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
–  A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
–  E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
–  Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
(“Morte e vida severina”, p. 147)

A ironia fina de João Cabral acompanha o nome próprio deste Severino, pois que é um que lavra a dor, mas já não lavra! E a repetição do verso: “irmão(s) das almas” exagera e exalta a explicação anunciada: “Ó irmãos das almas! Irmãos das almas! Não fui eu que matei não!”[4]

A negativa que permeia essa poética merece a nossa atenção. As palavras do poema nomeiam o que essa escrita carrega: “coisas de não”. Mas escutemos agora o retirante, “cantando excelências para um defunto”:

–  Finado Severino,
Quando passares em Jordão
e os demônios te atalharem
perguntando o que é que levas...
–  Dize que levas cera,
capuz e cordão
mais a virgem da Conceição.
–  Finado Severino,
etc...
–  Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.
–  Finado Severino,
etc...
– Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves.
(“Morte e vida severina”, p.152)

A poética desse Auto de Natal nunca foi reconhecida pelo autor como uma “obra maior”, mas revela-se uma grande obra do ponto de vista de sua construção, parecendo ter parentesco com “a obra dos aedos populares nordestinos”.[5] Sobre os aedos, podemos considerar a parte histórica dos relatos contados que ficaram conhecidos com a voz dos cordelistas na literatura de cordel. Na origem da palavra cordel,[6] encontramos: “corda fina; barbante; poesia narrativa popular, impressa, de origem nordestina”.[7]

Continuamos e vemos que a linguagem poética no texto surpreende o leitor com suas metáforas vivas, como o momento de exaltação em que o recém-nascido é saudado:

–  E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
–  Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
–  Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
(“Morte e vida severina”, p. 179)

O trabalho é sentido na força propulsora dos versos, com os lexemas: “contagia”, “corrompe” e “infecciona”. Todos apresentados em ordem crescente de dificuldade. Mas, os três vocábulos são usados no sentido inverso do esperado. Forçam a nossa atenção, dificultando o discurso “flutual”, fácil, conforme reconheceu Manuel G. Simões. É que, aqui, o que contagia traz a vida, na esperança sadia.

Compondo-se como um poema que carrega muitas vozes (o Severino, a rezadora, os dois coveiros, o morador de um dos mocambos, o mestre carpina, as duas ciganas, os vizinhos, os amigos), os tantos severinos que nos falam podem ser um só: o próprio escritor, um poeta (nordestino) em luta com a escrita. Daí, talvez, João Cabral ter afirmado que “Morte e vida” é um “monólogo-diálogo”, não chegando a ser um poema. Afirmando, contudo, que é “um poema que fiz um pouco com os pés”,[8] o poeta tenta explicar a contradição por tê-lo incluído no volume Duas Águas, e comenta que desta forma o fizera porque o livro ficara muito fino para uma primeira publicação de Obra Completa.

O fato é que é um poema feito com o corpo, escrito “um pouco com os pés” e ainda assim, ou, principalmente por isso, é um texto que rabisca a sua linha de escrita via o real do corpo, ou melhor, com o que escapa e que surge fora do simbólico.

Ouçamos:

–  Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
–  Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
–  Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
–  Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
–  Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
–  Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.
(...)
–  Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
(“Morte e vida severina”, p. 162)

Os versos são veementes e colaboram neste fazer, escrever, cavar na materialidade de uma escrita-corpo que acontece em “língua seca de esponja”. O poeta e seu texto, tanto quanto o retirante e suas perguntas inúmeras, vão deixando aflorar as questões do escreviver, semeando com o corpo, e almejando sobreviver a essa sua sina.

 

Notas:

[1] Aqui o negrito é nosso na referência ao poema “Antiode”, já introduzido antes, também com o negrito. MELO NETO. Serial e antes, p. 69.

[2] MELO NETO. Serial e antes, p. 146.

[3] SIMÕES. Paisagem Tipográfica, p. 101.

[4] MELO NETO. Serial e antes, p. 147.

[5] SIMÕES. Paisagem Tipográfica, p. 102.

[6] O cordel antigo tinha nas capas de livros os arabescos. Nos anos 30, aparecem os folhetos com imagens de Padre Cícero, Lampião e Maria Bonita. A maioria foi feita usando a xilogravura com base de madeira macia (cedro, pinho, umburana). SALLES. A saga do cordel na poesia, p. 2.

[7] SALLES. A saga do cordel na poesia, p. 1.

[8] A afirmação foi usada para dar o tom de uma obra menor. Depois se tornou seu poema mais conhecido e apreciado. CASTELLO. João Cabral de Melo Neto: O Homem sem alma & diário de Tudo, p. 106.

 

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