A Cabra. Francis Ponge em obra
Francis Ponge comparece em sua obra de diversas maneiras. Há, em alguns momentos, fatos que ocorrem na vida pessoal e se misturam com o fazer poético. Podemos surpreender o poeta em um instante enriquecedor. Ele costuma descrever, por exemplo, refletindo as coisas: “Eu me olho escrever”, disse em O caderno do pinhal fazendo alusão ao hábito de crítico de si mesmo. Outras vezes, assinala a presença de alguma rotina trazendo a existência da filha e/ou da mulher:
Armande se levanta, escuto os primeiros ruídos da persiana na nossa própria casa. (...) Odette não tardará (...) CADERNO, POSE, PLUMA, POUSADA. Odette abre a sua porta, ela bate, EI-LA.[1]
Vejamos que Ponge escreve a consciência dos limites de seu próprio objeto de escrita – pousado – na mesa. Lá onde o poeta desenhou, inclusive, um auto-retrato deste momento. A mesa, o corpo do poeta – em sua materialidade implicado – e ainda o papel e a caneta (a pluma), estão todos, repito, em íntima relação com a emoção e o desejo que ali nasce. Na cena descrita, o poeta mostra-se atento também aos ruídos externos. Mostra-se em estado de escuta.
Notas:
[1] No original : « Armande se lève, j’entends les primiers bruits de volets dans notre propre maison. (...) Odette ne tardera pas (...) CAHIER, POSE, PLUME, POSÉE. Odette ouvre sa porte, elle frappe, LA VOICI. » « Le verre d’eau », in: Oeuvres Complètes, p. 609.