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Em 13/03/05

Sobre a metáfora no poema “La Chèvre”

“Et l’aventure, la grande aventure, c’est de voir quelque chose d’inconnu, chaque jour, dans le même visage, c’est plus grand que tous les voyages autour du monde.”
Alberto Giacometti

O texto-poema La Chèvre de Francis Ponge nos apresenta “a cabra”, nos conta “a cabra”, nos descreve “a cabra”, com seus traços, seus atos, sua natureza: a cabra-pedra de Ponge se mostra na metaforização en abîme. Metaforização em desdobramento visando um fundo escuro, que não se fecha em um único sentido.

No trabalho com as palavras, o escritor faz o “leite-textual” nesta leitura que Aron nos apresenta, e as construções vão se montando em justaposição fragmentária. De certa forma heterogêneas, mas antes de tudo textuais. Fundadas sobre a unidade de uma escrita plural, avançam e carregam concomitantemente, ou de forma alternada, todos os “fios”, conforme já afirmamos. Parece que em Ponge, a metáfora, ao mesmo tempo em que se ostenta como escrita, se dá também, imediatamente, de forma “descritiva”. Ou seja, ela diz o objeto e ainda o descreve.

É assim que a primeira metáfora do poema “La Chèvre”, “la cornemuse aux pouces abaissés”, “a gaita de foles em polegadas rebaixadas”, apresenta “la chèvre” com seus peitos cheios de leite. Portando entre “ses pattes grêles”, suas patas delgadas, “la cornemuse”, parece portar mesmo, o que foi inventado, de propósito, para ilustrar uma definição da metáfora, da imagem de Pierre Reverdy – freqüentemente citada por André Breton no Manifeste du Surréalisme (1924). Cito:

“A imagem é uma criação pura do espírito. /Ela não pode nascer de uma comparação, mas da aproximação de duas realidades mais ou menos distantes. / Quanto mais as relações das duas realidades aproximadas forem distantes e justas, tanto mais a imagem será forte – mais ela terá força emotiva e realidade poética.”[]    

As imagens, quanto mais distantes e exatas, mais alcançam o objetivo de ter potência e realidade poética. É interessante pensar Ponge, leitor de André Breton. Confirmado pelas Notas da Obras Completas, Vol. I, onde encontramos sobre o poema “La Chèvre” (nota n.19) a seguinte afirmação sobre Breton: no final do poema de Ponge há uma derivação da fórmula célebre de Breton sobre o ato reprodutor: “A beleza será convulsiva ou não será beleza”.[] É, que se supõe que Ponge teria lembrado o poeta, reafirmando-o, com a seguinte referência: “Sabendo, aliás, muito bem – embora de fontes ocultas, e incessantemente convulsivas.”

No dicionário Petit Littré, dicionário da língua francesa, que era muito caro ao poeta Francis Ponge, encontramos: “grêle – adjet. Literár. “Longo e fino”,[] que podemos traduzir livremente, como o que tem pouco volume e circunferência. Aron afirma que nada é mais afastado da metáfora surrealista, no entanto, que as metáforas deste nosso texto. Parece que o efeito surpresa da aparição da gaita-de-foles entre as patas do objeto-“cabra”, vem mesmo sublinhar o arbitrário da escrita, e mais precisamente que esta escrita seja, de alguma forma, “uma constelação semântica” – “cornemuse”, pois evocando a forma exterior do instrumento (gaita-de-foles) nos mamilos da cabra, o poeta explora o aspecto excêntrico da escolha desta imagem, pouco usada, e também constrói, com a forma, a semelhança entre os tubos da gaita-de-foles e os mamilos de uma cabra. Sem esquecer, acrescentamos, que sonoramente, a palavra pode traduzir, em seu som de quase sopro, uma abertura semelhante ao movimento da gaita-de-foles, que ao ser tocada pelas mãos humanas se enche de ar e depois se esvazia.

De alguma maneira, neste texto-poema, fica-se com a impressão de que o poeta foi tomado por uma série de analogias que se apresentam simultaneamente como um jogo verbal. A multiplicação das analogias sucessivamente aplicadas a um mesmo objeto é um dos traços que caracterizam a poética pongiana.

Por vezes, esta diversidade se mostra naturalmente, no fato de que se trata, simplesmente, de aspectos diferentes do objeto, um certo tom sobre tom, podemos dizer. Vejamos no texto:

“Assim acontece com a laranja: primeiro, seu aspecto exterior e a elasticidade de sua textura propiciam uma aproximação com a esponja, depois o consumo de seu suco conduz a um paralelo com o limão, enfim a consideração do fruto desembaraçado de seu invólucro justifica as analogias com o “balão rosa oval”, o “mataborrão” e as “lanternas vienenses”, enquanto a visão da semente reintroduz a imagem do limão.” []

Segundo Jean Pierrot, a mão se metamorfoseia “tour à tour” sob o olhar do poeta.

Em “La Crevette”, por exemplo, em um só parágrafo se justapõem, em acumulação, as metáforas mais variadas. Vejamos um fragmento do poema:

“Arqueado como pequeno dedo conhecedor, frasco, bibelot translúcido, nave caprichosa que lembra o capricórnio, escrínio de vidro provido de uma antena hipersensível e cheia de delicadezas, salão de festas, de espelhos, sanatório, elevador − arqueado, assustado, com seu abdômen vítreo e um vestido de cauda, terminado por palhetas ou abas peludas – ele se move por saltos.”[]

A impressão que o leitor tem, é que o poeta foi assolado completamente por essa série de analogias, que se apresentam simultaneamente. E, que assim assolado por elas, Ponge escreve estas “metáforas em cascatas”, todas elas compatíveis entre si, e barulhentas.

Encontramos neste poema, uma outra imagem importante que os críticos fazem relação com o escultor Giacometti. Para recuperá-la um pouco, voltaremos ao texto, que lhe dá suporte e que foi escrito alguns anos depois; é o livro L’Atelier Contemporaine. Neste livro, da editora Gallimard(1977), Ponge escreve o texto “Réflexions sur les statuettes, figures et peintures d’Alberto Giacometti”. Ele escreve Giacometti, o artista, nos apresentando a sua história: “Giacometti nasceu em 1901, em Stampa, (Suíça), em uma cidadezinha da montanha, quer dizer no coração rude da Europa, mas voltada, sobretudo, em direção à Itália”,[] e, enquanto vai fazendo a aproximação do escultor com o montanhês, vai desenhando a figura de Giacometti, como a de um Pastor, que um dia se transforma em rocha. Cito:

“Como todo pastor de montanha, Giacometti, sujeito às aparições, não sossega ao longo da mesma noite, até que as tenha transformado em cajado. Talvez, como Júpiter para segurar o raio em seu punho?”[]

A figura do escultor Giacometti – com seu traço que, muitas vezes, partia do desenho para a escultura, e no movimento mesmo da obra, no movimento da mão que esculpe figuras aturdidas, marcadas por pés delgados, como árvores delgadas – tem estreita relação com o texto-poema “La chèvre”. Ponge diz sobre Giacometti: “largo e hirsuto, o rosto sem viço, marcado ainda pelos estigmas de seu tormento noturno: terrificado ainda por aquelas frágeis e ameaçadoras silhuetas de árvores delgadas em torno dele, ou de suas cabras.”[]

Como observação de pesquisa, encontro no livro Alberto Giacometti – oeuvre grave, da Maeght Éditeur de 2001, vários desenhos sobre o atelier do escultor. São litografias datadas de 1951 a 1954, e em muitas delas percebo o tamborete de madeira, juntamente com as figuras longas, ou apenas com os bustos de mulheres. Essas obras, algumas delas, incluem também no seu nome o “tabouret. Vejamos: “Tête et Tabouret”, de 1954, e “Les deux tabourets”  de 1954.

Ainda encontro outras: “Tête de Cheval I” e “Tête de cheval II” de 1954. “Sculptures”, “Chien”, “Chat et tableu”, “Chien et Chat”, “Buste dans l’atelier”.

Nos desenhos, a figura do tamborete de madeira compõe o ambiente do ateliê do escultor, na época. O tamborete também está presente na casa-museu de Giacometti em Saint-Paul-de-Vence. 

No filme Un homme parmi les hommes, que assisti em DVD no Centre Georges Pompidou, buscando recompor o ateliê de Giacometti, o tamborete de madeira estava sempre nas cenas, sustentando a obra que estava sendo esculpida.

Ponge deu a Giacometti um lugar forte e importante em sua própria obra. Parte de sua pesquisa sobre a obra de Giacometti não nos interessa especialmente neste momento, mas podemos afirmar que são notórios o cuidado e a dedicação de Ponge ao escrever sobre o escultor, assim como o foi também ao escrever sobre Picasso. Sempre dando lugar ao objeto, no caso aqui o objeto mesmo da escultura, o objeto-em-obra que se apresenta.  

***

 

Notas:

[]  Cito: “L’ímage est une création pure de l’esprit. / Elle ne peut naître d’une comparasion, mais du rapprochement de deux réalités plus ou moins éloignées./ Plus les rapports des deux réalités rapprocheés seront lointains et justes, plus l’image sera forte – plus elle aura de puissance émotive et de réalité poétique...’’ Breton apud  ARON, Thomas. Op.Cit, p.81.

[] Cito: “La beauté sera convulsive ou ne sera pas”. BRETON, André. (Nadja. Oeuvres Complètes, Bibliothèque de la Plêiade, t. I, p.753.). Apud nota 19 das OEuvres Complètes de Ponge. Vol I. p.1191

[] Cito: “grêle – adj. Littér. Long et menu”. Dictionnaire de la langue fraçaise. Dictinnaire de Littré par A. Beaugrau. Librairie Gérérale Française, 1990, p. 800.

[] Cito: “Ainsi en est-il de l’orange: d’abord son aspect extérieur, et élasticité de sa texture, entraînent un rapprochement avec l’éponge; puis la consommation de son jus conduit à un parallèle avec le citron enfin la considération du fruit débarrassé de son enveloppe justifie les analogies avec le “rose ballon ovalle”, le “tampon buvard” et la “lanterne vénitienne”, tandis que la vue du pépin réintroduit l’image du citron.” PIERROT, Jean. “Lyrisme et antilyirisme” in: Francis Ponge. Librairie José Corti. 1993, p. 383.

[] Cito: “Arqué comme un petit doig connaisseur, flacon bibelot translucide, capricieuse nef qui tient du capricorne, châsse vitreux gréé d’une antenne hypersensible et pleine d’égards, salle des fêtes, des glaces, sanatorium, ascenseur, - arqué, capon, à l’abdomen vitreux, habillé d’une robe à traîne terminée par des palettes ou basques poilues – ils procède par bonds.” PIERROT, Jean. Op. Cit, p. 386.

[] Cito: “Giacometti naquit em 1901 à Stampa (Suisse) dans un village de montagne; c’est à dire au coeur rude de l’Europe; mais tourné plutôt vers l’Italie.”, PONGE, Francis. L´Atelier contemporain.” Op. Cit. p. 93.

[] Cito: “Comme tout berger de montagne Giacometti, sujet aux apparitions, n’a de cesse au cours de la même nuit qu’il ne les ait transformées en houlettes. Peut-être, comme Jupiter, pour tenir la foudre en son poing?” Idem. p.95. 

[] Cito: “large et hirsute figure grise, marquée encore des stigmates de son tourment de la nuit : terrifié encore par ces frêles et menacantes silhouettes d’arbres grêles autour de lui, ou de ces chèvres.”. Idem.

 

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