A bota de inverno
Ela está em negro.
No trem, a mulher esconde-se
sob as pregas
de sombras azuis.
O frio respira
mãos de unhas cuidadas,
a pedra verde fascina a outra mulher.
Elas se olham rapidamente,
o trem-metrô-em-trilhos
carrega torres de Babel:
línguas e olhares.
O corpo em crise
(fevereiro de 2005)
não percebe o poema
que começa.
Não me mexo.
Sinto os pés inchando
devagar. A pele parece ausente,
as unhas dos dedos
pedem espaço. Penso:
ao chegar em casa,
me deterei
- ao lavar os pés –
m a s s a g e a n d o o s d e d o s
(despidos de dóceis meias).
Algumas mulheres trazem consigo
os pés herança
na trama da linha que escorrega
sem derrame ou cicatriz.
