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Ao encontro do Grupo Ponge

 

Viagem a Lyon. Dia 2 de abril.

A língua pode ser seca. Este é o primeiro aprendizado que carrego deste encontro com os estudiosos da obra do poeta Francis Ponge.
Assisto aos seminários no departamento de arte, e algumas apresentações de trabalhos dos artistas contemporâneos de Lyon.
São 5 dias intensos. 

Leio e anoto.
Primeiramente, a partir do livro de Francis Ponge
Comment une figure de paroles et pourquoi
com apresentação de Jean-Marie Gleize

I= o livro La figue torna-se, então, um manifesto por uma poética da “fábrica”, da escrita em ato.

Preciso pensar a questão da repetição no poema La figue, pois é um texto escrito com repetições, mas de forma nova a cada vez. Faço a relação com a pulsão e a repetição, que se faz cada vez de forma nova (conforme Freud falava sobre a compulsão à repetição, e Lacan nomeava o autômaton e a tiquê).

Segundo:

I= “D'où tout cela me vient-il?”
A pergunta de Ponge nos leva à questão da memória, possivelmente às figueiras de sua infância; o figo, portanto parece ser um figo do passado - “um figo presente no passado”, segundo Gleize.
E, assim, o objeto do poema tem espessura autobiográfica.
(adoro essa dimensão da leitura de Gleize que contorna o objeto com o olhar, e atinge um ponto distante inserindo algo também do biográfico).
“O figo” presente no texto é antigo e é comparado a uma igreja, comparado a “une pauvre église ou chapelle romane”. Remonta às regiões de Villeneuve-lès-Avignon, ou Bombanville na Normandia.

Acrescento:
(algumas árvores no caminho de Lyon lembram as damas descabeladas dos filmes antigos que retratam o pós-guerra, ou ainda o período da Revolução).

Não quero deixar para trás a impressão forte que a gare de Lyon me causou. Os vagões enormes do TGV e a correria das pessoas, semelhante ao que senti em Paris ao descer no aeroporto. Diferentemente daquilo que os trens nos causam, enquanto estamos a caminho - quando podemos ler ou cochilar sem pressa -, os vagões parados incitam a correr.

Na volta a Paris, grandes vagões lotados, e nos surpreendemos com um enorme cão que também embarca: pêlos longos e dourados. O casal jovem e gordo não cabe na poltrona. Escondem o belo cão em baixo de suas cadeiras. Ele fica por lá em silêncio sem se mover durante todo o tempo da viagem. Chegamos a esquecê-lo ! O casal anônimo come sem parar. Procuro ler. 

 

 

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