Pesquisa na B.N.F.
Chegamos atrasados. Precisamos fazer tudo novamente: reservar os livros pelo computador, escolhendo-os novamente. O atraso na Biblioteca só é permitido até, no máximo, uma hora.
Às 11.45 hs entramos.
Hoje é dia 31 de março. Ainda faz frio. Beaucoup!
Preciso escrever essa imensa Biblioteca plantada à beira do Sena, em Paris. Guardada por grandes escadas construídas com madeira vinda do Amazonas (segundo me contaram). Os enormes prédios nos confundem ao chegarmos aqui pela primeira vez. É que eles têm mais de uma entrada e, nós, os estudantes, precisamos andar muito para chegar nas portas de entrada.
Na primeira vez, pensei estar em Nova York.
Escadas rolantes se debruçam sob o solo. Assombram.
As portas de vidro deixam passar a luz do dia. Os guardas, ali instalados, examinam nossas bolsas e mochilas na entrada.
Depois, já inside, outras gigantes escadas rolantes, modernas e silenciosas, nos levam ao andar térreo descendo lentamente como se fora uma descida ao subterrâneo de um grande edifício colocado sob o ar, pois esta gigante biblioteca se estende também para baixo.
Os corredores de tapetes vermelhos correm.
Ao lado, paredes de vidro
e silêncio ajudam a dar a este monumento
de livros
um espetáculo de obra de arte.
Nada na ville de Paris é tão contemporânea quanto esta gigantesca biblioteca – de vidros transparentes e escadas rolantes – para além das escadarias de madeiras negras vindas da floresta do Amazonas.
Dos habitantes dos banlieues – espalhados ao redor de Paris – fiquei marcada pela expressão dura de olhos tensos. Um estrangeiro está sempre em luta ?
Percebo que fiquei sem resposta ao meu jeito de olhar por meses. Não fosse uma indiana que me causou o milagre de um poema, eu não teria recebido no metrô sequer um sorriso.
Descer na estação do metrô lotada
perto do Beaubourg, o museu Pompidou,
- aquele que começa do lado de fora e amplia a vida de Paris pelas lentes foscas do vidro que nos faz admirar a cidade do alto das escadas – e,
receber o impacto da multidão que se move para pegar o próximo trem, girando (no detalhe: negros velhos e jovens que parecem atores de um filme em cena sem diálogo),
e assustada, perceber que vejo mais que o habitual nestes momentos mais tensos.
No sobe-e-desce dos metrôs
a partir das sombras,
do inverno,
exaustão.
As pernas desacostumadas
a tanto vaivém
em escadas e intermináveis degraus,
(quase sempre sujos)
reclamam.
E as malas das pequenas viagens
seguras por cadeados imprestáveis e desnecessários
pesam demais.
Chegar nas estações a partir do R.E.R. parece fácil mas não é.
Mais um dia !
E aonde está a vida universitária sonhada ?
Não consigo esconder as horas que correm...