Escuta Para a Literatura
Projeto Café Letrado promove encontros com poetas, que falam sobre seu processo criativo e sobre sua história.
Walter Sebastião, de Diamantina, 25/07/2002

Foto: Marcelo SantAnna
Normalmente, atrações dos festivais de inverno acontecem em espaços abertos, praças, adros de igrejas e mesmo as ruas de maior circulação. O pessoal da literatura, e mais exatamente da poesia, entretanto, fez outra opção. Para promover uma série de conversa com escritores, abordando aspectos ligados à prática literária, elegeram um cantinho no fundo de uma livraria diamantinense. E, entre livros e vinhos, põem-se a falar sobre os prazeres e dilemas do ato de escrever. É o projeto Café Letrado, do Festival de Inverno da UFMG, que, desde a última segunda-feira – e até amanhã –, vem realizando um dos eventos mais simpáticos e elegantes da tradicional mostra de arte e cultura.
À frente do projeto estão a carioca Solange Rebuzzi e o catarinense Pedro Garcia. Ela viu algo semelhante em Florença (Itália), há quase uma década, e adorou. Mais tarde, transpôs a proposta para livrarias vizinhas de sua casa, no bairro Leblon. Agora, a convite de Lúcia Castelo Branco, responsável pela programação de literatura do festival, aceitou realizar uma nova rodada de conversas com escritores em Diamantina. E o papo rola fino, suave, pontuando temas importantes – o principal deles, os meandros dos processos de criação. A formação em psicanálise, os estudos literários e o fato de Solange e Pedro serem também poetas contribuem para o bom resultado da empreitada: “É muito inesperado o que você escuta”, conta a primeira, observando que, por estarem na mesa, sempre, dois escritores, diferenças e pontos comuns se tornam muito evidentes.
Solange Rebuzzi tem procurado colocar em diálogo experiências diversas. Já aproximou autores de gerações distintas, amigos ou gente que não se conhecia, puxou editores independentes e tradutores para o exercício da fala. Avisa que tem privilegiado os poetas: “Eles não têm espaço, não conseguem editar seus trabalhos com facilidade, vendem pouco e, nas livrarias, é difícil achar estandes de poesia”. Sobre o que têm falado mais? “Da angústia, persistência, desencanto, da alegria da escrita. Sobre o que move cada um a escrever e o prazer de ouvir outro escritor falando de seu trabalho”, diz, avisando que cada encontro é único. Estar à frente do projeto teve impacto sobre sua idealizadora: “Deu vontade de ler mais, passei a comprar mais livros, passei a experimentar mais com o meu texto”, revela.
Mas, afinal, ouvir o autor, que contribuição traz para a compreensão da obra? “Permite ouvir associações impensadas ou as relações do trabalho com outras leituras, além de informar sobre o modo como cada um trabalha a escrita – muito diferente de autor para autor”, responde Solange. E as relações entre a vida (do autor) e a obra? A coordenadora alega que é um tema difícil, uma vez que não existem reflexos diretos: “Tanto é possível pensar um aspecto afastado do outro – o autor, como sujeito, não importa –, como observar momentos em que vida e obra têm tudo a ver”. Conta que, na conversa com Silviano Santiago, pôde observar as duas coisas num único autor.
Lúcia Castelo Branco, falando do convite para Solange Rebuzzi realizar as conversas no festival, explica que ouvir o autor é ouvir o processo de criação: “É a escrita que está em questão e se põe a falar. Ouvindo o escritor, talvez não se aprenda nada sobre a obra dele, mas pode-se aprender muito sobre a escrita”. E faz um elogio à amiga de correspondência via Internet: “Solange tem a delicadeza de saber conduzir o processo de modo que o autor deixe a sala e a escrita fale. Ela tem uma escuta muito afiada para coisas que não são da ordem do ego”, observa. E brinca: “A conversa literária cria laços. E os laços de letra são os mais fortes que existem”.
Em tempo: as conversas do projeto Café Letrado estão sendo transmitidas ao vivo pela Internet (mas é preciso ter o programa Real Player) pelo endereço feira03.mg.gov.br/encoder/festival.