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Ensaísta analisa correspondência de Leminski e Bonvicino

Alécio Cunha, 05/07/2003

Durante a década de 70, os poetas Paulo Leminski e Régis Bonvicino trocaram intensa e original correspondência, discutindo, sobretudo, inúmeras nuanças da criação literária. No livro "Leminski, o Guerreiro da Linguagem", a ensaísta e poeta carioca Solange Rebuzzi estuda fragmentos dessas missivas, descobrindo que as cartas funcionavam como gênese de muitos poemas, surgidos ali, entre uma e outra conversa escrita.

A obra, publicada pela editora 7 Letras, do Rio de Janeiro (RJ), será lançada hoje, a partir das 10h30, no Café Com Letras, na Savassi, em Belo Horizonte. Na entrevista a seguir, a autora conversa sobre o processo de criação do livro, as muitas descobertas feitas neste percurso, o que ampliou ainda mais a sua paixão literária pelo autor de "Catatau" e "Caprichos e Relaxos". Solange revela também detalhes de seu próximo trabalho, onde aponta conexões entre as obras, aparentemente opostas, do paranaense Leminski e do pernambucano João Cabral de Melo Neto.

 

 

De onde vem seu interesse pela poesia de Paulo Leminski e quando foi seu primeiro contato com ela?

O primeiro contato com Leminski foi através do livro "Vida". Não estava estudando Literatura. Na época, lidava com a Psicanálise. Tinha uma preferência pelo estudo sério dos haicais empreendido por Leminski, sua dedicação à língua. Depois disso, quis saber um pouco mais a respeito do poeta. Tinha saído uma resenha sobre o livro "Vida" em um jornal do Rio de Janeiro e fui atrás da obra. Tive também contato com outro livro dele, o "Distraídos Venceremos". Assim, Leminski passou a fazer parte de minha biblioteca. Depois tive contato também com a poesia de Olga Savary. Ela é muito dedicada nessa pesquisa com o haicai.

Quando decidiu estudar a obra de Paulo Leminski com maior acuidade?

Foi quando resolvi que tinha de estudar mais. Quis estudar Filosofia Contemporânea, porque cheguei a conclusão de que o mundo e as pessoas estavam ficando alienadas. Durante esse curso de especialização, que durou dois anos, descobri que tinha de ler mais e estudar Literatura. Fui para o mestrado da PUC-Rio inicialmente como ouvinte. Para mim, tudo aquilo era um mundo novíssimo. Era mais velha e não tinha essa correria de alunos mais jovens, precisando do mestrado para poder trabalhar. Fui fazendo o curso bem devagar. Na PUC-Rio, eles não gostam de trabalhar com autores já canonizados. Achei que Paulo Leminski poderia ser interessante porque era contemporâneo e, mesmo assim, já tinha um reconhecimento. Eu me senti mais livre para poder escolher. Quando descobri as cartas, fiquei fascinada. Eu as acho fundamentais até hoje. Tentei saber quem era o Régis Bonvicino, o interlocutor de Leminski nas cartas-poemas trocadas pelos dois. Fiz um contato com a poeta Alice Ruiz, viúva de Leminski, por e-mail. Ela disse que eu era uma sortuda porque havia acabado de sair a biografia de Leminski, "O Bandido Que Sabia Latim", feita pelo Toninho Vaz. Meu orientador, Karl Erik Scho-llhammer, me deixou bem só nesse trabalho e tive muita liberdade na sua criação.

Que motivos a levaram a debruçar-se sobre as cartas-poemas trocadas por Paulo Leminski e Régis Bonvicino?

Houve um momento durante a escrita da tese, que fiquei muito apaixonada pelo texto de Leminski. Meu orientador disse que tinha de ser mais objetiva e distanciar-me do objeto de estudo. Disse a ele que, naquela altura, isso era impossível. O texto foi se desdobrando. Escrevo muito assim, tanto meus poemas como minhas histórias em versos para crianças. A escrita foi me levando. Não foi pensado, foi acontecendo. Tive muita dificuldade em mostrar o trabalho para algumas pessoas que achavam o texto pouco acadêmico.

Uma das características da poesia de Leminski é o encontro entre a experiência vivencial e a textual, dois elementos praticamente indissociáveis. Como vê esta questão?

Uma das coisas que associo quando você me faz esta pergunta é que Leminski defendia a poesia com muita paixão. Ele dizia que a poesia estava presente de forma muito forte na vida dele. Também dizia que podia fazer poesia com qualquer coisa. É a poesia como experiência. Esse foi um fator que me impressionou muito. Leminski, de certo modo, fecha um ciclo. Hoje não dá mais para viver da forma como ele vivia. Ele queria escrever como o ritmo do vento batendo na porta. Isso mostra a intensidade como ele vivia. Tudo isso me fez experimentar, na minha escrita, alguma coisa de entrega. Uma entrega no meu ritmo.

Que elemento, extraído da correspondência poética entre Paulo Leminski e Régis Bonvicino, você considera essencial?

Teoricamente, é a própria experiência do verso que nasce ali. Descobri que na Correspondência entre os dois poetas, o verso nascia antes mesmo de uma discussão. Dá para ver o verso nascer no meio de uma frase. Pensei nesta questão dos fragmentos e fui buscar em teóricos alemães como Novalis e Schlegel alguns pontos de contato.

Seu próximo trabalho, no Doutorado, enfoca a obra do pernambucano João Cabral de Melo Neto. Haveria algum ponto conectivo entre os trabalhos de Paulo Leminski e Cabral?

Entre alguns poetas sempre existem elementos em comum, a partir de suas escritas singulares. Eu vim fazer o Doutorado na Faculdade de Letras da UFMG porque queria trabalhar com a questão da escrita. Minha orientadora, a professora Ruth Silviano Brandão, tem um interesse em pensar a escrita. Vou pensar a escrita de João Cabral à luz do teórico francês Maurice Blanchot. Irei trabalhar também com um certo momento da correspondência de Cabral com Manuel Bandeira. Cabral vivia uma entrega semelhante a de Leminski em sua correspondência, embora tentasse fazê-la de uma forma mais lúcida. A poesia dele também jorrava, como um rio. Ainda vou me deter mais aprofundadamente nesta questão. Isso pode ser visto em poemas de Cabral como "O Rio" e "Morte e Vida Severina". São obras-desdobras.

 

Solange Rebuzzi é poeta. Autora de livros de poemas e do ensaio: “Leminski, guerreio da linguagem” (7Letras).

 

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