Bienal do livro
Solange Rebuzzi, autora do livro “Paulo Leminski, o Guerreiro da Linguagem”, um dos lançamentos do Colóquio de Literatura e Psicanálise da Bienal do Livro

Segundo Solange Rebuzzi, uma das convidadas para a conferência, a literatura antecede a psicanálise nesses estudos. A psicanalista, que também lança o livro de poemas “Pó de Borboleta” (Editora Sette Letras), trabalha com as obras de autores completamente diferentes, alicercada pelos estudos do psicanalista francês Jacques Lacan. As pedras de toque nos seus estudos são João Cabral de Melo Neto e Paulo Leminski.

Bienal do livro - Literatura e Psique
Edma Cristina de Góis
João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Maria Gabriela Llansol e Paulo Leminski, só para começar. Lacan e Freud. A psicanálise descobriu, e não é de hoje, a literatura. Ou teria sido o contrário? Fato é que grupos de psicanalistas estão cada vez mais interessados nos textos literários para reunir elementos de análise do comportamento humano. “Não digo que é uma apropriação, é uma travessia entre essas áreas”, adverte a psicanalista Solange Rebuzzi, que lança, na 6ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, a obra “Paulo Leminski, o guerreiro da linguagem” (Editora 7Letras).

O escritor Moacyr Scliar vai debater a relação literatura e psicanálise em “o texto da nossa experiência”: diálogo entre duas áreas
O interesse pelos textos literários tem início, na verdade, em uma série de indagações sobre o processo de escrita. “João Cabral falava sobre a página em branco, sobre o temor de encontrar a escrita”, lembra Rebuzzi. Na escrita, não há como ter controle. É mantendo-se atentos a essas questões que os psicanalistas adentram a literatura. Rebuzzi chama atenção de que não se trata de interpretação das obras literárias, mas de “leituras” desses textos. A psicanálise propricia a “escuta” e não um tipo de avaliação.
Outra convidada, a psicanalista Lucia Castello Branco, co-autora de “Mulher Escrita”, lançada na Bienal pela Editora Lamparina, partilha da mesma seara. A professora de literatura brasileira e portuguesa da Universidade de Minas Gerais, debruça-se sobre as obras das escritoras Clarice Lispector, Marguerite Duras e Maria Gabriela Llansol. No colóquio, ela apresentará o tema “Nuvens de pensamento branco: Maria Gabriela Llansol e a flor do libidinal”. Nesse trabalho, Lucia cerca-se da psicanálise como prática, “prática da letra”, e não exatamente uma prática teórica.
Para a psicanalista a literatura procura ser respondida através da psicanálise, deixando de ser sistema, para ser experiência. A portuguesa Maria Gabriela Llansol, cuja escritura é esmiuçada por Lucia Castello Branco, tem um caso particular de escrita. A escritora defende a existência de um “legente”, ou seja, um leitor que também é sujeito do texto que lê. “Em Llansol não há personagens, mas figuras, imagens que percorrem os textos”, acrescenta Lucia Castello Branco. Ainda segundo a psicanalista, mesmo com textos diferentes, Llansol aproxima-se de Clarice Lispector, graças a vibração das duas autoras. A pulsação das escritas configura um ponto de tangência entre as duas. “No colóquio, vou tentar explicar essas conexões. Já é um começo”, comemora.