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Solange entrevista / Solange entrevistada

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Viagem sem volta

 

 

1. Marco Lucchesi, aqueles que conhecem o seu trabalho sabem da dedicação com que você exerce as funções que ocupa, sempre lidando com a palavra e a escrita de forma séria e apaixonada. Escrever, assim como traduzir, e ainda dar aulas na UFRJ além de trabalhar como editor da revista Poesia Sempre da Biblioteca Nacional fazem parte do seu dia-a-dia. Como você concilia estas tarefas, e qual é hoje a prioridade do poeta?

Cara Solange. A prioridade é a palavra. O trabalho silencioso. Solitário. A prioridade? A literatura e seus desvãos. O conhecimento como salto. Ponte. Interseção. Uma pergunta e mil janelas, que se debruçam atentas sobre o nada. O silêncio, como prioridade. O mais no menos. Trabalho desde a madrugada, antes dos passarinhos madrugadores. Até o entardecer. Prioridades... são algumas. Duas alegrias, no teatro amador, montando com os alunos uma representação de Pirandello, Lo sguardo di Pirandello, o Olhar de Pirandello – inspirado livremente em Seis personagens à procura de um autor. A dignidade e o trabalho sério dos alunos, de cuja peça fui diretor e contra-diretor. Acho que mais contra. Outro fascínio, a discussão da filosofia da matemática e de seu ensino. Sinto-me motivado por aquelas mesmas janelas que se ligam a outras janelas. Os cem olhos de Argos. Ou talvez mil. A prioridade brilha entre cem e mil. Múltiplos da unidade. Múltiplos de dez. a uni-diversidade.

 

2. Em seu último livro de poesia Meridiano Celeste & Bestiário, recém lançado, você dá lugar aos animais em sua poética. Na linha do meridiano, linha imaginária, a palavra do poeta caminha buscando encontrar algo. Podemos dizer que o seu livro traça um espaço aberto e definido, de um ponto a outro, por onde circula a lírica sensível e o bestiário? Como é o seu trabalho ao pensar e compor um livro, desde o título?

Os animais. Sempre os animais. Com Nietzsche, a demanda de não elevar o homem apenas às vertigens metafísicas e a outras formas que o desliguem sempre de um corpo. De outro lado, São Francisco – e a noção do sagrado, da água aos ventos, do irmão-lobo e da irmã-vida. De outro, ainda – porque são tantos os lados, Solange – os Irmãos da Pureza, na cultura árabe, num maravilhoso tratado-fábula sobre os animais, em que até mesmo o porco é resgatado, diante dos senões islâmicos. Tenho para mim que o poeta é uma fera cercada de palavras. Mas estou fugindo da resposta. E continuarei a fugir, fingindo que não. O título. O título... Há neste Meridiano uma vontade, talvez uma demanda de urgência, de espaços vastíssimos e de outros reduzidíssimos. Tal como a pulga, em cujos olhos alcançamos as grandes Nuvens de Magalhães. A operação do micro- e do macrocosmos, conjugados no mistério do corpo. E do título. Nas coisas precárias. Delicadíssimas. Nas que nos tocam. Abraçam. E confundem. Meridiano. Sphera e Meridiano.

 

3. E como você trabalha o seu “piano interior”, a sua máquina de fazer poemas, levando em conta os ritmos e as tantas vozes que o habitam?

Máquina. Silêncio. Devaneio. Sempre e por toda a parte um princípio mozartiano. Um equilíbrio enganador. Uma espécie de bel-canto que exorciza as dissonâncias das formas de estar vivo. O piano trabalha, mesmo quando não. Trabalha. E rejeita o bel-canto, de modo absoluto. É como o último ato de Don Giovanni, diante da estátua do Comendador. Não há como evitá-la. É preciso adiar-lhe o convite. O piano me diz. O piano me dedilha. O piano me convoca e executa. E quando chego ao piano externo já não me iludo. Ele me tem. Ele me aponta. Ele me cala. E o que era Mozart se transforma em dissonância. Máquina. Silêncio. Devaneio.

 

4. Em entrevista, recortada da internet, eu destaco as suas palavras que afirmam que “a primeira língua em casa foi o italiano”, embora fora de casa a língua da rua fosse o português. Eu gostaria de saber se você considera que este fato de língua teria influenciado a forma interessada com que você trabalha e consegue compor um cenário poético singular na poesia contemporânea brasileira (aqui pensando os inúmeros livros traduzidos das obras de Eco, Vico, Leopardi, Rilke, Hölderlin, Artaud e outros).

Acho que sim. Fui pronunciado em duas línguas. A casa e a rua. O dentro e o fora. A demanda e a casa. A física e a metafísica. Traduzi para me comunicar. E mergulhei desde cedo no estudo das línguas. Buscava o outro. Deus. A mulher. O mundo. E precisava dizer a casa do outro. Pontes. Janelas. Mas a minha descoberta do Brasil – que é o que me move, desde cedo, me levou a Jorge de Lima e a Joaquim Cardozo, Machado e Guimarães, Clarice e Mário. E Bandeira. E Drummond – que conheci para minha alegria. E o Brasil antigo, dos séculos XVI e XVII que cultivo há tantos anos, desde os tempos que seguia o curso de História da UFF.  Essa é a minha pátria. Pátria de muitas pátrias. Mares de muitos mares. Tudo converge para este atlântico. Atlântico Sul. Pois é daqui – não de lá – que eu me conjugo dentro e fora,  mesmo e outro, par e ímpar, a rua e a casa, desde os fantasmas de Hölderlin e da solidão de Leopardi, da lúcida presença de Artaud ao mundo pleno e abissal de Vico. Sou o que me habita. E habito o que me é. Tenho saudades...

 

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