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e Revista Critério, ambas editadas em São Paulo.

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Tirésias, sob um outro olhar

Observações sobre Édipo e Antígona a partir de Hölderlin

Solange Rebuzzi []

1.

Conta a lenda grega que Tirésias foi ao longo da vida por ação dos deuses, sucessivamente, homem, mulher e homem outra vez. Posteriormente, novamente por ação divina, perdeu a visão. Em contrapartida, ganhou a possibilidade de adivinhar o (tempo) futuro como se fora uma outra forma de ver. Assim monta-se, de imediato, na cena de uma impossibilidade, uma outra cena; a de uma (im)possibilidade que carrega em si mesma um possível.

2.

Na tragédia Édipo Rei escrita por Sófocles, Tirésias se apresenta com alguma subjetividade. “Detentor da verdade divina, (ele) não perde a sua qualidade humana que se reflete no próprio modo como a verdade é transmitida ao rei” []. A tensão do diálogo do adivinho com Édipo, no qual ele vai revelando suas profecias aparece, portanto, carregada de irritação.

Rememoramos: durante a ação da tragédia (Édipo Rei), o rei procura ouvir algo que lhe esclareça porque o adivinho se fechara em silêncio, logo após o seu pedido de alcançar conhecimento. O adivinho, hoje reconhecido como aquele “que é simultaneamente um homem e um ser intermediário, que se situa, apenas em certos momentos, entre o mundo dos homens e um outro mundo”, [] quando não responde ao pedido do rei de Tebas, é percebido como não querendo revelar a sua intuição divinatória. Édipo que procurava respostas para o estado de desamparo em que se encontrava o seu reinado depois da chegada da peste, diz a Tirésias: “Então tu, malvado dos malvados, tu que serias capaz de enfurecer uma rocha, não falarás?” []. O próprio Coro comenta esta afirmação, ao tentar conciliar Édipo e Tirésias:

A nós se nos afigura que as tuas palavras (de Tirésias) foram proferidas sob o império da cólera, mas também as tuas, Édipo.
E não é disso que carecemos, mas da melhor solução para o oráculo[].

Na fala do Coro[] percebemos que se pretende uma solução para o momento tenso que se apresenta ali. A atitude do Coro na obra comporta também uma pergunta, segundo Hölderlin, algo “que dá ao todo da tragédia seu equilíbrio, fazendo “adequadamente” ou convenientemente surgir seu sentido? [] Édipo insiste buscando ouvir alguma verdade: “Ó Tirésias, que tudo conheces, o que foi revelado e o que é oculto. O que habita o céu e o que pisa a terra ! (...) Não nos recusarás, certamente, o presságio das aves ou outro caminho da profecia, se o possuis.” [] E o rei pede chegando mesmo a forçar Tirésias a declarar os oráculos depois de tê-lo até insultado. Conferindo ao momento mais intensidade, Tirésias termina por declarar:

Acaso sabes de quem procedes? Pois, sem que o saibas, és um inimigo para os teus, tanto para os que já estão sob a terra, como para os que vivem sobre ela. Uma maldição de dois gumes, a de teu pai e a de tua mãe, te há-de arrastar para fora desta terra no seu terrível passo, a ti, que agora, vês bem e dentro em pouco só verás a treva. []

Lacan no Seminário A Ética comenta que Tirésias, tanto quanto Homero, sabia que só quem escapa às aparências pode alcançar a verdade. Lacan, aqui, faz relação com a ‘cegueira’ daquele que diante de um luto absoluto, como sabemos que é o de Édipo, consegue continuar e seguir buscando a chave de seu enigma. O desejo de desejar que Édipo experimenta é vivido de uma forma surpreendente, e diríamos, também, intensa. Cito:

Se ele se arranca do mundo pelo ato que consiste em cegar-se, é que somente aquele que escapa das aparências pode chegar à verdade. Os antigos sabiam disso – o grande Homero é cego, Tirésias também. []

Parece-nos que Sófocles constrói, nesta tragédia sobre a condição humana, uma espécie de ‘lucidez “que suspende a limitação da consciência normal (que depende de distinções determinadas)” []. O que a fábula ou o cenário trágico nos apresenta, então, diz de um sentimento de liberdade e de contradição do subjetivo e do objetivo que o “herói trágico é (como dirá também Hegel) ‘ao mesmo tempo culpado e inocente’, lutando contra o invencível, ou seja, lutando contra o destino que é o próprio responsável por sua falta,” [] provocando uma derrota inelutável e necessária da qual ele só sairá “pela perda da própria liberdade” [].

Os estudiosos desses mitos reconhecem tanto no texto da tragédia de Antígona quanto no de Édipo, o uso de aspectos importantes da linguagem e descobrem as relações e os não-ditos em “pólos extremos da piedade e da selvageria” [] como parte de um mesmo mundo. Em Antígona, Sófocles deixa ver nos gestos e palavras da personagem “os deslizes desconcertantes das suas afirmações” []. Antígona passa, por exemplo, do argumento à imaginação. Às vezes, faz uso de uma argumentação impecável e a seguir desliza para afirmações provocantes.

E na errância, aonde Édipo se lançará, encontramos alguns outros pontos importantes. De fato Édipo, que antes vivia de forma segura, passa a mover-se nas trevas em direção ao (im)possível das certezas. Será nesse caráter do nosso herói, e no jogo de significantes de luz e treva, que podemos perceber o que Freud nos apresenta na reconstrução deste mito na psicanálise: a presença de um ‘saber’ que se constrói em tempos distintos da constituição de qualquer sujeito.

O inconsciente pisca e nos aponta, aos poucos, a direção que alerta alguma ‘verdade’ para cada e qualquer sujeito em análise, dentro de um caminho a desvendar. Podemos afirmar ainda que, quando lemos, inúmeras vezes, as tragédias de Édipo, sempre teremos a oportunidade de encontrar a complexidade e o insondável da natureza do homem, e um estado de desamparo no qual o sujeito apresenta seu não saber.     

Philippe Lacoue-Labarthe, estudioso das traduções hölderlianas, reconhece em Antígona “a mais grega das tragédias” [] no sentido do ‘mais lírico’, e também da obra onde Sófocles se mostra de fato “mais próximo de Píndaro“ []. Ele ainda comenta que a tradução feita por Hölderlin deixa o discurso dos gregos bem perto de nós, e não porque diga tudo. Especialmente, pelo que não diz (no sentido de que vai dizer de maneira diferente).

A queixa de Antígona surge como um lamento “com respeito a tudo o que da vida, lhe foi recusado” []. Com as considerações de Lacan observamos de onde Antígona fala; deste lugar de quem já perdeu a vida, mas também de onde pode vivê-la na forma do que já foi perdido. Lembramos que ela foi condenada a morrer aos poucos dentro de uma tumba de pedra, ou seja, enterrada viva.

3.

Uma outra leitura nos chega com o poeta e tradutor alemão Friedrich Hölderlin.

Contrariamente à maioria das leituras, que considera as palavras de Tirésias portando um caráter de juízo que condena as ações de Creonte e dá razão a Antígona, Hölderlin evita tal posição diante da tragédia, e, sem moralizar o tecido estético, vai nos apresentar um aspecto dinâmico que conjuga vários tons. A palavra do adivinho, portanto,

toma um sentido totalmente diferente, pois ela suspende o valor corrente ou empírico das enunciações e das ações, fazendo aparecer o equilíbrio rítmico que as une, apesar dos conflitos subjetivos, das oposições e das contradições aparentes.[]

O poeta vai afirmar a palavra de Tirésias considerando-a como transcendendo a significação imediata e provocando um intervalo. Por tratar-se da análise de um poeta, a questão do ritmo está presente. Ocupa um lugar bastante importante junto com a sintaxe gramatical. O essencial, segundo o estudo de Kathrin Rosenfield sobre essa questão, diz respeito ao fato que a palavra de Tirésias, nomeada “palavra pura” [], traz uma reviravolta nos valores da época. Já foi dito que as palavras do adivinho “suspendem a lógica argumentativa e conceitual dos protagonistas” []. Mas não apenas isso ocorre, pois fazendo uso do ritmo e da cesura [] (a interrupção contra-rítmica), ou o corte, elas – as palavras – vão aparecer como se fossem um outro modo de dizer, ou melhor, uma outra forma de ‘saber’. Hölderlin distingue no centro de sua análise do trágico, “que a ‘palavra pura’ de Tirésias torna sensível, o movimento contra-rítmico, a reviravolta dos valores” [].

Os mitos que podem ser considerados como ocupando um lugar intermediário entre o humano e o não humano, neste contexto merecem ser escutados. As ditas profecias falam, mas também calam. Intervalos e silêncios têm seu lugar. Cito Hölderlin em suas Observações: “Em ambas as peças, a cesura é provocada pelas falas de Tirésias” []. Lacan parece comentar algo sobre isso no Seminário A ética, quando observa que em Antígona surge “o corte que a própria presença da linguagem instaura na vida do homem” []. Nada, segundo ele, é mais que o corte que a linguagem escande.

Há uma nota no estudo de Rosenfield, que nos esclarece também que com alguns verbos compostos utilizados na língua alemã deslizamos facilmente “para um estado contemplativo no qual o sujeito é possuído por uma outra forma de saber – divina, sobre ou subumana – que pode terminar numa total alienação ou num deslocamento do entendimento humano” []. E há ainda na análise literária sobre o tempo do verbo (o futuro), tão utilizado por Tirésias, outro dado importante. A certeza de que “as terríveis ameaças que pairam sobre a casa de Creonte não estavam ainda presentes ou visíveis no início do diálogo”[] entre eles. Elas sobrevêm, quase sempre, após as acusações de traição ditas pelo rei com desconfiança. Parece que as indignações produzem em Tirésias as ondas de presságios, abrindo as profecias. Ou abrindo um outro olhar. As profecias pontuam a lógica dos argumentos e das intenções. E realçam as dissonâncias tanto quanto fazem iluminar o bom entendimento.

Interessa-nos, sobretudo, sublinhar que no estudo de Hölderlin – Observações sobre Édipo – o poeta imagina que o espírito do rei é demasiado desconfiado para uma escuta  ingênua. Édipo está interessado e deseja compreender as sutilezas da fala do adivinho. Faz perguntas desconfiadas buscando também entender o ambíguo e o obscuro dessas palavras. Mas, se Tirésias veio falar como um “bom guia do rei” [] é importante que ele esclareça as falhas e transgressões que Tebas vivia colocando em risco, naquele momento, até mesmo o sistema social e de nomes, com os limites e distinções humanas. A situação era grave e Édipo precisava tomar conhecimento desses fatos.

Nesse estudo do poeta o homem depara-se com a sua limitação, embora não fique resignado. O esforço heróico vai se apresentar através do esforço de ultrapassagem deste limite.

4.

A compreensão das Observações de Hölderlin (com as anotações de sua tradução escritas em 1804) diz de um tradutor-poeta investido na tarefa de fazê-la bem. Sustenta a ambigüidade sofocliana e a ‘trama de correspondências’ sobre as quais está o paradoxo trágico. Ele mesmo estabelece que escreve sempre atento à técnica mas também sob a ação ‘do imponderável’.

Sófocles, em suas tragédias, vai-nos apresentando o homem, interrogando-o ‘nas vias da solidão’ – exatamente no ponto onde morte-e-vida se aproximam tanto – e essa relação, no entanto, pode nos levar a um nível ‘radical’ onde tudo parece estar suspenso, tanto quanto pode vir a mostrar algo que deixa em suspensão o homem diante da linguagem. 

Há no estudo de Hölderlin sobre Antígona uma referência à virada do tempo, o que confirma os versos do poema “Timidez”, e nos remete, outra vez, à questão do ritmo. Esses versos estão escritos de forma tal que ao leitor causam estranheza, pois eles vêm na direção oposta à esperada durante a leitura. Digamos que o poeta consegue ler a respiração do texto sofocliano, e destaca a sutileza do sopro que as palavras portam quando um poeta consegue dizer mais do que o que está ali escrito. Entre-a-morte-e-a-vida há, de fato, algo que supera e avança na direção do fôlego que a língua poética carrega no movimento da linguagem.

Cito (em tradução livre):

...nosso pai, o deus do céu
Que dá a todos, pobres e ricos, a luz do pensamento,
Que nos reergue nesta virada do tempo.[]

Nos versos reconhecemos o movimento de torção, de giro no ritmo, e um aspecto surpresa leva o leitor a ler os versos livres (de sílabas métricas distintas) de maneira tal que ele experimente no instante da leitura a própria torção, ‘virada’ da linguagem. Mas, é com as considerações de Walter Benjamin, em Hölderlin, para a tragédia de Antígona que conseguimos escutar um caminho mais aberto no qual destacamos a problemática do tempo tomada pelo poeta, também na relação dos deuses, ou melhor, na equação: “o deus, (...) ele não é nada senão tempo” []. Não pretendemos adentrar nessa questão que nos parece mais filosófica. Porém, não há como não reconhecer a importância deste momento do pensamento poético de Hölderlin: ‘Torção do tempo, morte de Deus’ (não há linearidade e nem garantias do Absoluto).

Observamos, contudo que Hölderlin, ‘o poeta dos poetas,’ conseguiu escutar em Antígona, nos versos de Sófocles, além dos preciosos ruídos de lamentação – abrindo uma forma de ver – o ritmo das falas de Tirésias e seus cortes, e/ou a possibilidade de fazê-los na linguagem, desde aquela época. Para nós, psicanalistas, que buscamos um caminho também singular, há ainda uma pista que vem favorecer a compreensão de sutilezas de linguagem. Tanto ao lermos poemas em nossa prática de leitura como nas falas escutadas em nossos divãs, existe a possibilidade de dar atenção aos momentos nos quais acontecem as mudanças de respiração. E não somente ouvindo as histéricas, que tanto reclamam e suspiram, mas também ouvindo silêncios densos, e instantes de surpresas.

 

Notas e Referências Bibliográficas:

[] Psicanalista, membro da Escola Letra Freudiana.

[] ZAMBUJA FIALHO. “Introdução” in: Rei Édipo. Rio de Janeiro:Edições 70, Brasil, ltda. 1991, p. 21.

[] ROSENFIELD, K. H. Antígona – de Sófocles a Hölderlin. Porto Alegre: L&PM editores. 2000, p. 304.  

[] SÓFOCLES. Rei Édipo. Op. cit, p. 76.

[] Idem, p. 81.

[] Lacan diz que “o Coro são pessoas que se emocionam”. LACAN, J. Seminário A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar editor. 1986, p. 305.

[] ROSENFIELD, K. H. “A trajetória heróica e seus momentos de fraqueza” in: Antígona – de Sófocles a Hölderlin. Op. cit, p. 289

[] SÓFOCLES. Rei Édipo. Op. cit, p.74.

[] Ibidem.

[] LACAN, J. Seminário A ética da psicanálise.  Op. cit, p. 371.

[] ROSENFIELD, K. H. Antígona – de Sófocles a Hölderlin. Op. cit, p. 181.

[] LACOUE-LABARTHE, P. A Imitação dos Modernos. Ensaios sobre arte e filosofia. São Paulo: Editora Paz e Terra. 2000, p. 189.

[] Ibidem.

[] ROSENFIELD. K. H. Antígona – de Sófocles a Hölderlin. Op. cit, p. 181.

[] Idem,p. 181.

[] LACOUE-LABARTHE, P.  A Imitação dos Modernos. Ensaios sobre arte e filosofia. Op. cit, p. 193.

[] Idem, p. 191.

[] LACAN, J. Seminário A ética da psicanálise. Op. cit, p. 339.

[] ROSENFIELD, K. H. Antígona – de Sófocles a Holderlin. Op. cit, p. 295.

[] A palavra de Tirésias é considerada “pura” na medida em que ele é reconhecido como “o mediador entre o mundo dos homens e o todo do cosmos”. ROSENFIELD. K.H. Antígona – de Sófocles a Holderlin. Op. cit, p. 301. 

[] Idem, p. 297.

[] A cesura é nomeada, na métrica, como o lugar no verso onde um grupo tônico acaba e um outro começa.

[] ROSENFIELD, K.H. Antígona – de Sófocles a Holderlin. Op. cit, p. 297.

[]  Idem, p. 296.

[] LACAN, J. Seminário A ética da psicanálise. Op. cit, p. 338.

[] ROSENFIELD, K. H. Antígona – de Sófocles a Holderlin. Op. cit, p. 296.

[] Idem,  p. 305.

[] Idem, p. 311.

[] No original: “... notre père, le dieu du ciel/ Qui donne à tous, pauvres et riches, le jour de la pensée,/ Qui nous redresse à ce tournant du temps. ’ Versos retirados do poema “Timidez”, no qual se pode destacar sobretudo no estudo Remarques sur Antígone a observação feita pelo poeta para as palavras ‘tournant de temps’/ ‘virada do tempo’ buscando sublinhar esta possibilidade de giro. Hölderlin apud ESCOUBAS, E.  “Hölderlin et Walter Benjamin : L’Abstraction Lyrique”. In: L'Herne, n.57. Paris: Éditions de L'Herne. 1989,  p. 494.

[] HÖLDERLIN apud Escoubas. « Hölderlin et Walter Benjamin : L’Abstration lyrique », p. 494.

 

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