Cruz e Souza, O Poeta Assinalado
1. CRUZ e SOUZA, o poeta
João da Cruz e Souza, brasileiro, nascido em 24 de novembro de 1861, filho do escravo Guilherme Souza e de Carolina Eva da Conceição, carrega no nome próprio a marca de sua trajetória. O sobrenome lhe foi doado pelo “pai branco”, acoplado ao nome de seu pai, como era o costume da época onde os escravos não tinham reconhecimento como cidadãos. Cruz e Souza marcado, portanto, pela luta escrava, vai depois ser reconhecido “cisne negro”, e vai percorrer de forma singular seu vôo poético solo.
O poeta nasceu na cidade de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis. O brilho de sua inteligência foi percebido logo cedo pelo “casal de senhores brancos sem filhos”[1] que provendo os seus estudos desde os quatro anos, ajudaram–no a mover-se em um caminho definitivo no desejo de ler e escrever.
O início de sua caminhada em versos está documentado. Aos 17 anos publica poemas em jornais locais. São versos com gosto de época que afirmam o trabalho com a palavra: “É assim – trabalhando/ sempre e sempre estudando/ que se alcança mais luz!”. Cruz e Souza foi definindo seu lugar de escritor projetando-se aos poucos no cenário nacional, escrevendo versos e textos em prosa que sustentam a luta pela libertação do negro na sociedade do século XIX.
Entre 1881 e 1883, viajando como ponto teatral da Companhia Dramática Julieta dos Santos, Cruz e Souza contribuiu atuando no jornalismo de outras cidades. Desta época, versos e textos defendem a libertação do negro. Era o início da República quando ele consegue colocação como noticiarista da revista A Cidade do Rio de Janeiro, de José do Patrocínio, com minguado salário de quinhentos mil réis.
Já no final do século – em 1897, com a fundação da Academia Brasileira de Letras por Machado de Assis – a literatura e o escritor passam a ter lugar respeitável na nossa sociedade. Neste ano, os textos em prosa poética de Evocações estão prontos para o prelo. Brito Broca conta que no reconhecimento do homem de literatura, “a presença hegemônica é do homem branco”[2], e o poeta Cruz e Souza atuava no meio cultural desejando transpor as barreiras de cor.
2. O poeta assinalado, Cruz
O assinalado
Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema,
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
O importante poema de Últimos sonetos, publicado postumamente em 1905, foi escrito entoando a ode do herói que se desdobra no “tu” – sujeito léxico nomeado como “o assinalado”. Há um sujeito lírico que se debate. No primeiro quarteto do soneto podemos ler a aproximação do poeta ao louco. Assim, assinalado, Cruz e Souza insiste seu percurso com a palavra. Repete-a quatro vezes: louco... loucura/ louco... loucura apurando-a na sonoridade das vogais que ecoam.
Há respingos das leituras filosóficas de Schopenhauer a que se acostumara desde menino, e com versos que causaram incômodo na época – porque principalmente na cidade do Rio de Janeiro “a promessa de futuro coincidia com a modernização das instituições e das cidades, em pleno andamento” [3] – o poeta fala da dor, em tom maior.
A Tu/ és/ o/ lou/co/ da i/mor/tal/ lou/cu/ra,
B O/ lou/co/ da/ lou/cu/ra/ mais/ su/pre/ma,
B A/ te/rra/ é/ sem/pre a/ tua/ ne/gra al/ge/ma,
A Pren/de/-te/ ne/la a ex/tre/ma/ Des/ven/tu/ra.
Em versos de 10 sílabas e rimas ABBA, Cruz e Souza constrói seu soneto causando estranheza e revela-se poeta - louco, revelando também a sua genialidade. Parece mesmo estar “possuído” na loucura da escrita. As palavras avançam e retornam, e em suas repetições realizam o trabalho de construção do verso:
“Tu és o louco da imortal loucura
o louco da loucura mais suprema”.
Poema que ecoa o mito prometeico na leitura de Ivone Daré Rabello: daquele que “conhece os segredos mais altos, possuído pelo delírio divino”[4], pois acorrentado à terra, sua morada é prisão. Cruz e Souza assinala seu desejo de escrever com o fogo divino, mas impossibilitado se mostra preso ao chão. A luta parece ser entre o carnal e o espiritual.
A sonoridade do quarto verso, em encontros consonantais e na aliteração de “t” e “d”: “prende-te nela a extrema Desventura”, leva o leitor a experimentar esse lugar – prisão – de um vai-e-vem da letra que o verso transcreve, (trans)bordando a própria questão do poeta. “Cruz sintetizou a experiência poética e a loucura, o desvario, num só momento”[5], pois marcado por algum sinal afirmava sua visão, o que Paulo Leminski reconhece como “sinal para ver mais longe”[6] mas também para sofrer mais. É também Leminski que nos dá a chave desta leitura, dizendo que “essa “algema”, que anagramatiza rima em: “tua AL-ma suplicando GEMA”[7], abre-se em estrelas “seus R-T-TR-TR, um dos mais belos versos da língua”[8]. São versos que nos levam a visualizar um céu que pipoca sonoridades - estrelas. O poeta busca superar com ambigüidade o sofrimento, e evoca o passo ao indizível - ao que não é dito completamente - porque está para além da palavra.
Enquanto marca do movimento simbolista, Cruz e Souza mostra-se atingido pelo espírito deste final de século cheio de inquietações. E, melancolicamente, trata o tema da imortalidade – um desdobramento da questão da morte – que faz parte do cenário simbolista. No entanto, no cenário tropical, muito diferente em altura e em significado da “torre de marfim” dos poetas franceses, a resposta é mais chã, contra o domínio da corte literária e burguesa desta época.
No primeiro terceto, “o Poeta, o grande Assinalado”, insinua-se na ironia trágica: um poeta que é capaz de ter visões e revelações. Em um Brasil que se inicia moderno, o poeta parece responder à crítica que se mostrava investida “ainda” na aura do isolamento romanesco. Cruz e Souza na vertente “neo-romântica de inspiração verlaineana”[9] experimenta o agudo senso do valor da repetição no verso, como elemento de surpresa poética.
O soneto, no entanto, não se junta à “Canção da Torre Mais Alta” da lírica de Rimbaud. Parece mais buscar a forma afirmativa na força da criação, embora evocando o estado da loucura que é próximo ao indizível, ao obscuro. O poeta cansado das lides do corpo, e não querendo a glória na “torre de marfim”, consegue com a força de seu verso fazer sonhar e ainda fazer sofrer. O poema foi, provavelmente, escrito a partir do sofrimento e loucura de Gavita Rosa, sua mulher, “que ele cuidou, desveladamente, até a recuperação”[10] após a morte de dois de seus filhos.
No plano do sublime, “o eco sonoro e a similaridade semântica de “suprema” e “extrema”, na referência à “loucura”[11] e à “Desventura”, atam de forma sutil reminiscências e desejos. Considerando, pois, que o poeta age sua impulsão lírica, ele transporta imagens de insatisfações, em jogo com as palavras.
O mito de Prometeu, aquele que conhece os segredos mais altos e está acorrentado na terra–cárcere, apresenta-se assinalado na imagem-símbolo do poema. Mas a Desventura que prende parece ser a que move o passo do poeta: a alma em ritmo de sonoridade onomatopéica apresenta a saída no aparente insolúvel:
Faz que tu´alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
3. O pensamento por imagens em Cruz e Souza
Em um Brasil que lia as obras trazidas de Paris, capital cultural do mundo, a palavra, fruto do trabalho poético de um poeta que labuta o verso atento ao som e à letra, realiza a música de sílabas, de vogais e consoantes, enquanto constrói ritmos que são frutos desta musicalidade, seguindo caminho inusitado. Os simbolistas anunciam os modernos.
No primeiro terceto a presença do “Tu” nomeando um Poeta, o grande assinalado, nos evoca o lugar ausente do escritor. Do eu ao tu, o poeta desterrado mostra sua ironia trágica. O Assinalado passeia um “mundo despovoado/ de belezas eternas.” Podemos ler o “descrente” Cruz buscando alguma saída aos sofrimentos vividos. Talvez, denunciando a máscara da sociedade brasileira mergulhada no imaginário, que tentava fixar a cidade grande como cenário nacional de glamour moderno.
A estrofe final do soneto de feição onírica freudiana – “espasmos imortais” – comparece com “imagens que podem estar representando lampejos do inconsciente”[12]. São formas nebulosas que sinalizam o funcionamento do inconsciente, que se abre e se fecha em um piscar palavras. Cruz e Souza consegue sintetizar a experiência poética e a loucura, neste instante, em relâmpago-verso de sons contundentes, especialmente de imagens desconcertantes.
O livro Últimos sonetos do qual este poema participa, havia sido escrito e entregue a Nestor Vítor, quando a morte já o assombrava. O poeta, então tuberculoso, precisou partir com a mulher Gavita para Sítio, próximo a cidade de Barbacena, interior de Minas Gerais. Neste lugar faleceu, três dias depois, aos trinta e sete anos.
A morte comparece no poema em sinal de triunfo. A lírica ganha força sugerindo a aproximação entre poetar e morrer. Henriqueta Lisboa reconheceu nesse poema a “verdadeira via crucis”[13] de Cruz e Souza.
A sensibilidade sublime do poeta alcança no caos do mundo o mais estranho e vai além, pois caminha na noite escura dando luz à palavra, que abre o pensamento do leitor em movimentos e sentidos inesperados, na plasticidade das imagens. São paisagens que transportam o nosso pensamento com valor realista e simbólico ao mesmo tempo, e trafegam no espaço do indizível.
Notas:
[1] RABELLO, Ivone Daré. Tese de doutorado. Um canto à margem. Uma leitura da poética de Cruz e Souza. São Paulo: USP. 1997. p. 55.
[2] Idem, p. 51.
[3] RABELLO, Ivone Daré. Tese. Op.Cit. p.173.
[4] RABELLO, Ivone. Daré. Tese. Op.Cit. p. 84.
[5] LEMINSKI, Paulo. Vida. Op cit. p.62.
[6] Idem, p. 63.
[7] Idem.
[8] Idem.
[9] TEIXEIRA, Ivan. Daré. Cem anos de simbolismo: Broquéis e alguns fatores de sua modernidade in: Missal. Broquéis. Ed. Martins Fontes. São Paulo: 1998. P.XV.
[10]LEMINSKI, Paulo. Vida. OP cit. p. 62.
[11] RABELLO, Ivone. Daré. Tese. Op cit. p. 85.
[12] TEIXEIRA, Ivan. Missal Broquéis Cruz e Souza. Op cit. p. XXI.
[13] RABELLO, Ivone. Daré. Apud Coutinho in: Tese. Op , cit. p. 183.