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Entre os Ensaios estão textos publicados nos sites da Revista de Poesia e Cultura Sibila,
e Revista Critério, ambas editadas em São Paulo.

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O Código da Barbárie: Sem reflexão e sem crítica

Sentimos o real de nossos dias como um “pesadelo fantástico”, que retorna em seu caráter traumático e excessivo. Poderíamos até dizer que a cidade do Rio de Janeiro (no final de 2006) vive de maneira desgovernada com o horror e a perversão presentes no dia-a-dia. As situações extremas que se apresentam para os que aqui habitam levam os sujeitos a conhecer um grau de impregnação e persistência de violência diária, difícil de simbolizar.

1.

Indago: dispomos de meios para pensar nossa humanidade?

A pergunta nos coloca diante da questão da perda de nossos direitos, mas também da questão da perda do mundo. No entanto, o elemento comum a todos os homens não é o mundo, mas a “natureza humana”. Nossa humanidade, vivendo sob pressão e sofrimento, nem sempre desenvolve seu caráter de fraternidade. A natureza humana e os sentimentos de fraternidade que a acompanham “manifestam-se apenas na obscuridade”,[1] como acreditou Hannah Arendt.

Ao longo da história, os homens sempre confirmaram momentos de estranheza e divergências que se tornaram fonte de guerras inevitáveis: as Grandes Guerras e as  pequenas guerras, os conflitos e as disputas por terras e regiões ricas e produtivas. Os homens deste nosso século são capazes de favorecer a guerra e decidem-se por atos violentos e perversos. Os “escondidos” campos de extermínio são campos de prisioneiros aterrorizados pelos “fanáticos” que combatem o terrorismo com terrorismo. Mas nem sempre o homem quer ver o visível e “as monstruosidades intelectuais e políticas de uma época desarticulada”.[2]

A paranóia instalada a partir do acontecimento de 11 de setembro, que foi considerado um ato perverso, “uma mórbida cultura da morte”,[3] autorizou as grandes potências operações de bombardeio com estratégias tecnicamente patológicas do ponto de vista também ético. E montou uma rede de atrocidades em série, que só favorecem a guerra fazendo funcionar o despotismo. Não são suficientes os conflitos e as guerras em muitos territórios. Ainda encontramos as situações inesperadas das explosões de bombas em metrôs e em áreas de turismo, fruto da insanidade de alguns grupos extremados em luta por seus direitos. O fato desses acontecimentos tem deixado o Ocidente diante de uma paisagem “sem barricada”[4] e sugere o caráter traumático, que rompeu com a razão, criando um código de barbárie sem precedente. Alienados, os homens convivem com esses atos bárbaros como se a vida simplesmente seguisse seu curso natural.

Além disso, alguns fenômenos de violência citadinos são insuflados por um sopro televisual (de espetáculo) inteiramente desprovido de pensamento. Tanto faz se estamos diante do horário nobre da TV, com a exibição da matança internacional, ou das cenas de um programa que expõe corpos nus. As manchetes dos noticiários estão inundadas de imagens com palavras ocas, confirmando que “acabaremos um dia mudos de tanto comunicar”.[5] Quase não há, portanto, espaço para a reflexão e a crítica. O veloz de nossos dias engole praticamente toda forma de expressão que não seja a comunicação. E a diversão e o supérfluo ganham manchetes como status de assuntos sérios.

2.

As nações civilizadas, apesar do momento “global”, não reconhecem as diferenças humanas de hábitos milenares e voltam-se umas contra as outras com ódio desmedido. Vivemos tempos sem esperança? Nossos líderes, em geral, parecem anestesiados no torpor do poder, e as páginas de nossa história rabiscam o que poderia ser reconhecido como um final de humanidade vivido com crueldade. A ética parece ter sido olvidada em algum lugar do passado. Por meio da leitura da psicanálise e de sua prática, confirmamos que a “essência” da natureza humana busca satisfação de necessidades primevas. Podemos esclarecer que entre esses impulsos primevos estão os egoísticos e cruéis. Impulsos que, se não forem dirigidos para outros fins – sociais, por exemplo –, acabam voltando-se de maneira feroz para o outro, o outro da diferença. Freud reconheceu que a civilização caminhava com uma hipocrisia imensa. Na época, ele escreveu que os indivíduos compelidos a agir apenas de acordo com um grau de satisfação sem medida burlavam a civilização.

A falta de senso crítico, em seu sentido mais amplo, traz à tona um aspecto lamentável de nossa vida porque nosso intelecto só pode funcionar de maneira digna de confiança quando afastado das influências de fortes impulsos emocionais; do contrário, comporta-se simplesmente como um instrumento da vontade e fornece a inferência que a vontade exige. A experiência psicanalítica confirma que as pessoas perspicazes “se comportam sem compreensão interna (insight), como se fossem imbecis, tão logo a compreensão interna (insight) necessária se defronte com uma resistência emocional”.[6] E recuperam inteiramente a compreensão uma vez superada essa resistência.

Vivemos, de maneira geral, alienados e distantes de uma “compreensão interna”, ou dizendo de outro modo, não estamos hoje mais sujeitos ao equívoco numa sociedade que se mostra impedida de rever seus pontos de alienação e resistência?

As nações e os povos ocidentais, mas não só eles, procuram cada vez mais a vida desmedida. Tanto a questão árabe como a questão judaica, por exemplo, na tensão que faz avançar o sentimento de rejeição na modernidade, trabalham de maneira irracional com o que Slavoj Zizek nomeou como o desaparecimento da dimensão política propriamente dita, e a instalação de um “círculo vicioso autoperpetuante”[7] e, com certeza, autodestruidor.

A formulação psicanalítica de passagem ao ato ajuda a pensar a atividade militar de Israel como “uma expressão de impotência, uma impotente passage à l’acte que, contrariamente a todas as aparências, não tem um objetivo claro”[8], porque simplesmente as decisões parecem acontecer por impulso, sem uma escolha política clara e lúcida que pense a vida em seu mais amplo sentido; sentido humanitário de interesses que não apenas os próprios. Com certeza, os árabes não conseguem  “entender” o ponto de vista de Israel e vice-versa.

Nossa vida, da maneira como se mostra hoje o mundo, fica cada vez mais difícil. “A própria humanidade do homem perde sua vitalidade na medida em que ele se abstém de pensar” [9] e o mundo “se torna inumano, inóspito”.[10] O momento de agora é o de limite do humanismo, não na referência ao humanismo das Luzes, mas tendo em conta as questões da barbárie já inscritas em nós. Os “tempos sombrios” de Arendt foram tomados, sobretudo por alguns poetas, como a única possibilidade de poetizar (a vida) após Auschwitz. Paul Celan, em texto de correspondência a um amigo, declarou: “Vivemos sob céus sombrios, e existem poucos seres humanos.”[11]

3.

Reflito sobre o estado de alienação em que vivemos. Está claro que as dificuldades que se apresentam ultrapassam, e muito, nossas poucas ações responsáveis. Este é um tempo não mais apenas sombrio, mas desarticulado e caótico. Seria possível ainda “promover os gestos e as estruturas políticas, éticas, e culturais” [12] nas quais a violência do homem possa encontrar formas de sublimação?

A arte, a literatura e a poesia operam mudanças. Há a possibilidade de recobrir com o respeito o que vem do belo. A clínica psicanalítica oferta um outro caminho, capaz de dar aos que aí se implicam com seu desejo a experiência da responsabilidade. Qualquer que seja a vida ou a via escolhida, nós traduzimos as questões do outro com a falha que carregamos na identificação que fazemos com ele. Talvez, por isso, nós, humanos, damos tanto lugar ao escândalo e/ou aos momentos que desmascaram situações de fragilidade na vida de alguém. Sim, queremos o bem do outro, mas...

Em O mal-estar na civilização, Freud diz que “o homem, com efeito, é tentado a satisfazer no próximo sua agressividade”.[13] É isso que Lacan reconhece no texto freudiano como anunciando a questão do gozo: um para além do princípio do prazer. Ou seja, o gozo “é um mal porque comporta o mal do próximo”.[14] Consideramos contudo que, na relação do sujeito com seu gozo, existe a chance de conhecer e fazer valer alguma medida que não seja a da pulsão de morte.

4.

São os inúmeros escritores e pensadores que nos ajudarão na tarefa de fazer valer o mundo e uma vida ainda... humana. Precisamos ler e reler Freud, Kafka, Benjamin, Adorno, Arendt, Nietzche, Deleuze, Agamben e muitos textos literários. O sopro que a língua poética articula e que anima a escuta e a escrita dos poetas contemporâneos no mundo contribui na tarefa, quase impossível, de fazer vibrar a vida com delicadeza. São as muitas línguas, especialmente em suas incríveis nuances e ritmos, que traduzem o mais ínfimo e claro deslizar de nossa humanidade.

 

Texto publicado na Revista Sibila on line (Estado Crítico) em 2006

 

Notas:

[1] ARENDT, Hannah. Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 24.

[2] Idem, ibidem. p. 25

[3] ZIZEK, Slavoj. Bem vindo ao deserto do real. São Paulo: Boitempo, 2003. p. 164.

[4] Expressão criada por Jean-François Lyotard.

[5] NOVARINA, Valère. Diante da palavra. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003. p. 13.

[6] FREUD, Sigmund. Reflexões para os tempos de guerra e morte. In: Obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1974. V. 14, p. 325.

[7] ZIZEK, Slavoj. Op. cit. p. 150.

[8] Idem, ibidem.

[9] ARENDT, Hannah. Op. cit. p. 19.

[10] Idem, ibidem.

[11] CELAN, Paul. Carta a Hans Bender escrita em 1960.

[12] PRIGENT, Christian. L’Incontenable. Paris: P.O.L., 2004. p. 275.

[13] FREUD, Sigmund. Apud LACAN, Jacques. In: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. p. 226.

[14] LACAN, Jacques. Ibidem. p. 225.

 

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