Crônica de um Café Letrado
Aconteceu no Outono de 2008, na Mediateca da Maison de France do Rio de Janeiro, um encontro poético e musical que trouxe à discussão algumas questões do universo blogueiro e mediático, que a poesia de hoje nos oferece também.

1.
Le bleu de l’inflexion
Laure Limongi
Le genou est fléchi afin de disposer le corps à la verticale de la serrure.
Le corps porte la clef mais ne veut pas ouvrir, encore.
La main tient la clef en la caressant tandis que l’œil ne broie que du noir. Tandis que l’œil clair perce, sourcil contre métal glacé, fouille sans succès, l’œil à la limite de sa perception ne pourra s’en remettre qu’à l’action. Peut-être.
La main gauche est posée, à plat contre le bois de la porte qui est un bois lisse.
Le mur du couloir regarde la scène.
L’odeur savante des cheveux a séduit et bruisse du mouvement de la tête ne sachant trop si et quoi et que faire.
Avec un je-ne-sais-quoi de sauvage et perdu.
Avec un je-ne-sais-quoi de déjà mort.
La robe est froissée de toucher le sol, portant le poids du personnage léger au cœur lourd.
La robe crisse de la respiration haletante de la curiosité et de la peur.
Le mur du couloir en est ému.
O azul da inclinação
O joelho está flexionado a fim de dispor o corpo na vertical da fechadura.
O corpo carrega a chave mas não deseja abrir, ainda.
A mão contém a chave acariciando-a enquanto o olho se abandona à tristeza. Enquanto o olho claro perfura, a sobrancelha contra o metal gelado, examina sem sucesso, o olho no limite de sua percepção só poderá voltar à ação. Talvez.
A mão esquerda está posta aberta, contra a madeira da porta que é uma madeira lisa.
A parede do corredor olha a cena.
O cheiro conhecido dos cabelos seduziu e murmura com o movimento da cabeça sem saber muito se e o quê e que fazer.
Com um eu- não-sei-quê de selvagem e perdido.
Com um eu-não-sei-quê de já morto.
O vestido está amarrotado de tocar o solo, levando o peso da personagem leve de coração pesado.
O vestido chia da respiração ofegante da curiosidade e do medo.
A parede do corredor se emociona.
Tradução: Solange Rebuzzi
(Fragmento retirado da revista Action poètique. n.189, p. 73.)
2.
(Je me souviens...)
Laure Limongi s’habille en Noir. Laure Limongi a des grands yeux et des cheveux Noirs. Sa peau est tel quel le lait (très Blanche). L’image et la répétition – à voix basse – de son texte m’a fait penser à son personage dans le poème « Le bleu de l’inflexion » : « Le petit chaperon Rouge » qui désire manger le lecteur.
3.
Do livro INTRADOXOS de Márcio-André (p. 57):
[coro]:[a cabeça é
levemente levada para trás cuando o maxilar mastiga e fala a
sopa de carne semipronta com macarrão e legumes uma
intumescência de vidraças varejeiras ante o convexo da colher
a cabeça riscada no gás lavrada nos entroncamentos da noite
[cenário noir: com pessoas abrindo e fechando guarda-
chuvas] e o tempo que resta dela sentada ao piano e fumando
o tempo com suas mãos de bauxita negra o tempo de todas
as mulheres belas e de tailleur enrabadas pela cidade que
cuando chegam em casa se envergonham de seu orgulho e
cuando finalmente amam já é tarde demais o tempo das
pessoas que levam choque por existir [são essas que um dia
falam “é agora” e entram em combustão espontânea] das
pessoas que cuando olham o relógio é sempre um número
repetido o tempo escrito numa tatuagem no avesso da pele
entre rachaduras intradérmicas o tempo do cristão que acha
que o diabo espreita o tempo com suas idéias desossadas e
condensado no vértice das fábricas na medula dos
encanamentos [a mais insondável distância acolhida no verbo
terra [fuselagem a carne de seu nome]] viver é respirar um
pouco mais ao lado uma trachéia lunar na garganta lugares
com vista para outros lugares [amar um outro é reinventar o
seu tempo dele ]]
(Visualizo o poeta
entre-as-cordas-de-seu-violino)
4.
Depois:
... e o seu vestido foi levado pelas ondas
O mar nas areias de Copacabana pode trazer e levar. Nas festas de Iemanjá ele recebe flores, pedidos, orações. Sacode um ano que começa. Nas ressacas, costuma trazer de volta areias fundas pedaços de plásticos pedrinhas e conchas. Alguma jóia perdida. Moedas. Às vezes, o mar se arremessa nos mergulhos daqueles que o experimentam, e lava cansaço e agonia tanto quanto silêncio e solidão.
No dia 23 de abril, nos últimos momentos de um verão carioca outonal, o mar conheceu a pele de Laure Limongi. O corpo de Laure Limongi. Não que ela não fosse afeita ao mar, pois nasceu na Córsega. Mas,
“Dieu que les vagues sont grandes...
à Rio!”
confessou em seu blog ROUGELARSENROSE.
À noite, já refeita do susto, a poeta nos confidenciou após uma caipirinha de cachaça:
“Eu fui à praia de Copacabana. O sol estava macio na minha pele.
... a onda veio rápido e cresceu. De repente, ela me embrulhou e levou o meu vestido.”