Michel Deguy no Rio de Janeiro

Retrato
A alma
É Dom Quixote
M. Deguy
O poeta passa
- a (cicatriz) – tensiona
uma escrita pulsional ?
O vento do inverno enerva
a energia do desespero
(L’énergie du désespoir)
Um passo transitório. Hoje é sábado?
A paisagem sem hora
pede um cenário
em três tons
Paredes envelhecidas
no restaurante
Um pedaço de luz cai no colo da mulher ao lado
O pássaro da esquerda,
entre os montes que se avolumam no céu,
tece um arco de plumas alvas
Na manhã, bem no alto de Santa Teresa,
o homem de andar pesado
come palmito branco assado com alecrim e molhado no azeite
Après,
ele sobe escadas íngremes antes de partir
(mas há outros poetas por perto
e qualquer um que repare em seu olhar enrugado
perceberá que gosta de brincar)
No corredor-penumbra do hotel
(a perna da estátua quer deixar o mármore)
Ele anseia o descanso do Corpo
e sonha que em Paris anda de bicicleta
mas no Brasil carioca passeou de barca até Niterói
Mais tarde:
como está a noite lá fora ?
Os mendigos catam lixo nos restaurantes-boteco das esquinas de Copacabana
Nem sempre em frente ao mar
De lado, o homem fuma Marlboro (2 reais)
Na fumaça – imagine
Ele espera o táxi chegar pelas mãos de um outro homem
que não tem sequer bicicleta
(e fuma cigarros Hollywood)
Quando não houver mais este dia
Ele, de certo, nem se lembrará
Mas a verdade é múltipla
Rio de Janeiro, 19 de setembro de 2007.
Foto: Rafael Viegas