Café Letrado: poesia & arte
Pequeno histórico:
Creio que foi durante o ano de 2000 que inventei o Café Letrado. Visualizei-o como um “espaço” para leituras e conversas sobre o fazer poético. Pensei-o enquanto um lugar sem lugar (pois poderia acontecer em espaços outros que não o acadêmico: livrarias, bibliotecas, etc.); um espaço, no qual os escritores e poetas convidados pudessem conversar e dizer de sua obra, dizer do como deste lavoro (com as delícias, as manias e/ou as tensões fazendo parte dos comentários ouvidos pelos leitores e também pelos poetas presentes).
Diferente das conferências e das palestras, que os escritores em geral fazem nas universidades e em auditórios, o Café Letrado proporcionaria, à maneira de Maurice Blanchot, uma conversa infinita, ou seja, uma conversa com a escrita (que seria regada a café e biscoito).
Os primeiros encontros do Café Letrado no Rio de Janeiro aconteceram na livraria ContraCapa no bairro do Leblon. Os organizadores convidavam dois escritores a cada vez para leituras e conversas, também com o público presente.
Priorizando os poetas, ouvimos histórias e detalhes sobre a luta com o fazer literário, em sua singularidade. Estiveram conosco os seguintes escritores, entre outros: Augusto Boal e Alcione Araújo, Armando Freitas Filho e Pedro Garcia, Sérgio Sant’Anna e André Sant’Anna, Rachel Jardim, Júlio Castañon Guimarães e Paulo Henriques Brito, Marco Lucchesi e Claudia Roquette-Pinto.
O Café Letrado aconteceu ainda nas cidades mineiras. Em Diamantina, durante o 34º Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais, na livraria Espaço B, e em Belo Horizonte na Secretaria de Cultura.

1.
As bibliotecas não servem somente para guardar os livros e mantê-los bem cuidados e ao alcance de nossas mãos. Na cidade do Rio de Janeiro, alguns encontros, com múltiplas vozes de poetas, têm acontecido nos meses de agosto e setembro de 2007. São os encontros do Café Letrado: poesia & arte na Mediateca da Maison de France.
Organizados por mim e por José Eduardo Barros, em parceria com a Maison de France, os momentos de leituras e conversas abriram a Casa francesa nestes bate-papos sobre o fazer poético, editorial e artístico.
São conversas que tocam, resvalam e assombram o leitor, mas também trazem um movimento de vozes que sustentam a arte.
2.
No primeiro encontro deste ano, escutamos a intensidade dos versos de Régis Bonvicino,
assistimos algumas imagens-em-ritmo do filme de Bebeto Abrantes (Recife/Sevilha: João Cabral de Melo Neto),
e
a tradução e leitura de versos de Henri Deluy (também diretor da revista de poesia Action Poétique).
Transcrevo versos do poema lido em duas línguas:
26 août 2000: Actualités
Henri Deluy
1
Frédéric Nietzsche est mort : depuis hier.
Cents ans. Pas plus. Le mort : Frédéric Nietzsche.
.
Il est mort la même année qu’Oscar Wilde.
Guillaume Apollinaire avait vingt ans.
.
Mallarmé était mort depuis deux ans.
Pierre Reverdy n’avait pas onze ans.
.
Crevel, alors, Desnos, venaient de naître.
Beaucoup moins vieux que Benjamin Péret.
Beaucoup plus jeune que Marcel Duchamp.
2
Dans le métro, ligne six
Dix-huit heures : Frédéric Nietzsche
Nique la justice.
.
Avec une majuscule à justice.
3
Il fait encore nuit. Le jour
Reste plaqué contre le mur.
.
L’ombre redevient ce fauteuil.
4
Ne pas se laisser enfouir
Sous le mur, dressé, opaque gris
Bleu, vers plus de gris
Ou de bleu.
5
Artaud n’aime pas Frédéric.
Il n’aime pas Christian.
Il n’aime pas Frédéric. Il
.
Il n’aime pas Frédéric.
6
Sur une affiche, rue d’Ulm : une femme nue.
Et, au crayon, « NIETZSCHE N’AIMERAIT PAS. » Et à
.
Et à côté : « NIETZSCHE T’EMMERDE ».
7
Les personnages s’agitent.
Les événements se pressent.
L’intrigue se noue. Une in-
.
Finie, une totale in-
Différence.
8
Frédéric Nietzsche, boulevard Rabateau,
Conduit un camion de fruits et légumes.
Une
.
Brique tombe.
9
La salive est plus lente.
Le corps,
Qu’il convient de pénétrer,
Demeure
Impénétrable.
.
On n’a rien dit.
On
N’a rien fait.
10
Dites-moi,
Monsieur Nietzsche,
Que diriez-vous
D’un
Verre,
.
Au Brûleur de Loups ?
26 de agosto 2000: Atualidades
1
Friedrich Nietzsche morreu : desde ontem.
Cem anos. Não mais. O morto : Friedrich Nietzsche.
.
Ele morreu no mesmo ano que Oscar Wilde.
Guillaume Apollinaire tinha vinte anos.
.
Mallarmé estava morto há dois anos.
Pierre Reverdy não tinha onze anos.
.
Crevel, então, Desnos, acabavam de nascer.
Muito menos velho que Benjamin Péret.
Muito mais jovem que Marcel Duchamp.
2
No metrô, linha seis
Dezoito horas : Friedrich Nietzsche
Debocha da justiça.
.
Com uma maiúscula à justiça.
3
É noite contínua ainda. O dia
Fica colocado contra o muro.
.
A sombra se torna esta poltrona.
4
Não se deixar esconder
Sob o muro, vestido, opaco cinza
Azul, verso mais cinza
Ou azul
5
Artaud não ama Friedrich.
Ele não ama Christian.
Ele não ama Friedrich. Ele
.
Ele não ama Friedrich.
6
Em um cartaz, rua d’Ulm : uma mulher nua.
E, a lápis, “NIETZSCHE NÃO AMARIA”. E ao
.
E ao lado : “NIETZSCHE TE MANDA À MERDA”.
7
Os personagens se agitam.
Os acontecimentos se comprimem.
A intriga se ata. Uma in-
.
Finita, uma total in-
Diferença.
8
Friedrich Nietzsche, boulevard Rabateau,
Conduz um caminhão de frutas e legumes.
Um
.
Tijolo cai.
9
A saliva é mais lenta.
O corpo,
Que convém penetrar,
permanece
Impenetrável.
.
Nada foi dito.
Nada
Foi feito.
10
Diga-me,
Senhor Nietzsche,
Que diria o senhor
De um
Gole,
.
No Brûleur de Loups ?
Tradução: Solange Rebuzzi
Notas:
Rua d’Ulm, onde se encontram os prédios da Escola Normal Superior, em Paris.
Le Brûleur de Loups, grande café-restaurante, hoje desaparecido, onde se reuniam os surrealistas, em 1941, em Marseille.
Poema do livro Je ne suis pas une prostituée, j’espère le devenir (Flammarion, 2002).
3.
O sopro em crise pede mais espaço ao leitor e pede ao poeta que insista. O trabalho com a língua que Régis Bonvicino explicita nos seus versos, e nos dá a ver em flashes de pontuações estranhas, comemora “o próprio processo poético que inventa sua dramatização. (...) Recusa o sentido figurado, principalmente a metáfora.” Cito Bonvicino, do livro Página órfã, no poema com o mesmo título lido no Café Letrado (27.08.2007):
Um semáforo
não cabe num parágrafo,
cúmplice passivo
dos mendigos
presentes no velório,
porta de garagem,
dos quatro ratos assassinados
por pigmeus finados
fãs de tânatos
Uma negra posterga seu semblante
na entremanhã seca
e parabólica dos prédios
Jesus é um recurso abstrato
que ela traz debaixo do braço
jardins de aspérulas
e cabeças-brancas
na calçada, uma caçamba
objetos abandonados
Nem uma dupla cabeça de Hermes
entenderia aquele homem
dormindo na cadeira
sobre o entulho e o lixo,
beco sem saída, página órfã,
nunca, imitação de vida
4.
“O poeta faz a língua se conservar e andar para a frente” disse-nos, em entrevista a José Paulo Moreira da Fonseca, João Cabral de Melo Neto. O francês Christophe Tarkos explicitou algo sutil quando afirmou que o poeta faz a vigília da língua. De fato, o trabalho com a palavra compõe com a sonoridade, em texturas variadas, um resto de experiência que precisamos ouvir.
Nessa mesma direção, o filme de Abrantes consagra ao ritmo “a palo seco” cabralino um estatuto até então pouco explorado em imagens. Pois, o cineasta recolhe das ruas de Recife e de Sevilha detalhes de cenas que confirmam sutilezas da escrita “a contrapelo” de João Cabral, com um olhar e um sonido que nos ajudam a visualizar a obra do poeta, que se dedicou a construir uma poesia anti-lírica.

Fotos: Rafael Viegas